sábado, 15 de junho de 2013

Qual tevê você vê? Ou onde está o mundo lá fora? - Parte 1

Publicidade de uma rede de supermercados tem Pelé sentado no trono e dizendo: "Como rei do futebol, eu decreto..." e dentre as tantas coisas que ele decreta, está lá: "FAÇA DE TODA TEVÊ UM SANTUÁRIO".

Coloco em letras garrafais para deixar ainda mais exposta a obviedade que essa frase traz.

Não sei quanto a você, mas eu gosto bastante de ver tevê e não assisto tanto quanto gostaria ou mesmo poderia. Eu mesmo, me orgulho bastante de ter comprado uma tela plana de 42 polegadas, exibindo em HD na sala da minha casa os programas que mais me agrada.

Sou do tempo em que as opções eram Globo, SBT, Bandeirantes, Manchete e a local TV Guaíba. Programas eram disputados a tapa. Tínhamos uma só tevê em casa. Quando ela pifava, havia um clima de velório lá em casa. Transitei da tevê preto-e-branco num tempo que um jogo entre Internacional e Palmeiras um deles tinha que jogar de branco porque senão na P&B tu não distinguia quem era quem, para a tevê a cores, do seletor de canais para as teclas digitais, de ter que levantar para trocar de canal para a consagração do controle remoto.

Para milhões de brasileiros dentro do sonho de consumo que lhes foi imposto ter, sem dúvida a tevê é um santuário. Trabalhei no PROCON e as segundas-feiras cheias de pessoas reivindicando direitos eram aquelas posteriores aos Fantásticos de domingo em que traziam uma "novidade" sobre direito do consumidor. "Moço, mas deu na tevê, deu no Fantástico".

Não havia internet naquela época. Ela chegou logo depois, e passados dezoito anos, ficamos tentando lembrar como era a vida sem a internet, talvez como nossos pais, para nós que estamos com mais de quarenta anos, ficam tentando lembrar como era a vida sem tevê.

E desse modo estamos numa situação de transição: milhões de brasileiros vêem a vida na tevê, como um dia o slogam na rede de televisão fez questão de afirmar - e vários milhões, de acreditar. Acreditam que a novela retrata a vida real, a ponto de uns e outros xingarem atores no supermercado só porque interpretam o inverossímel vilão da novela das nove.

No mesmo passo, outros milhões vêem a vida na nova tevê, afinal de contas dezoito anos não é nada em face da eternidade. Muito mais recente, é a vida que você vê nas redes sociais - ampliam o leque de situações e verdades e afirmações e debates de uma forma nunca vista. Pelas redes sociais temos contato diário com pessoas com as quais não falaríamos mais do uma ou duas vezes por ano. Com pessoas que não víamos há 30 anos. Com pessoas que jamais falaríamos. Com pessoas que em momento nenhum perceberíamos tanta identidade.

Na convivência simultânea entre a tevê - e esta dividida entre a aberta, tradicional, e a paga - e a internet passamos a ter a oportunidade de verificar a diversidade. Diversidade de existências, de opiniões. Diversidade de verdades.

Tudo isso para dizer que, em face dos recentes acontecimentos em São Paulo, principalmente, mas também em Porto Alegre (pela proximidade fática em que me encontro), convivemos com distintas, diferentes, complementares e muitas vezes antagônicas verdades.

E isso se estende para a mídia escrita: jornais, revistas. Estes, cada vez mais premidos pelo crescimento das manifestações via redes sociais em que se escancaram os contrapontos que elas, grandes mídias comprometidas, não têm coragem ou vontade de mostrar.

Nesse diapasão, quem se dispôs a receber as informações pelas mais distintas mídias, que hoje chegam em tempo real às nossas casas, computadores, "tablets" e "ipads" - ao contrário do tempo antigo que nos restava esperar o Jornal Nacional e - ai - sua definitiva verdade, pôde escolher a tevê que viu.

E você, qual tevê você viu? Aquela que Pelé decretou ser um santuário? Ou a outra? Pense nisso.

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