quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Costela de fogo de chão

Nesse ano-novo faremos uma costela no fogo de chão. Tá decidido! A janela já foi inclusive reservada no açougue. A lenha tá guardada, esperando que seja suficiente. O espaço para as valetas decidido! Agora tô quebrando a cabeça para ver o espeto.


Pelo que andei vendo e conversando por aí, qualquer modo de suspender a costela é válido para assá-la no fogo de chão. O que vale é o resultado, que deve ser o mesmo. Achei um saite em que um bagual descreve dica a dica como fazer a costela em fogo de chão, e ele até se deu ao trabalho de desenhar um espeto apropriado, pois disse não encontrar nada similar por aí.

No "mercadolivre.com" realmente se acha de tudo: pois não é que existe o tal espeto, feito especialmente para a costela de fogo de chão?

Taí o bicho: é como se fosse uma grelha, mas sem a grade! A idéia é prender a costela entre os ferros, evitando que ela deslize, um risco que se corre caso ela seja espetada.

Não vi isso a tempo, caso contrário poderia tê-la comprado a tempo de usá-la na vidada de ano. Acharei outras formas, de qualquer maneira.

Como eu já havia avisado antes, este é um texto programado (escrito dia 28). Não sei como ficará minha costela, mas prometo contar por aqui, inclusive com fotos.

Feliz ano-novo, e toda essa espécie de coisas!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A lista

Chega o fim de ano e ficamos nós recordando o passado, fazendo nossas reminiscências, pensando naquilo que foi e no que poderia ter sido.

Há quem limpe o passado e viva apenas o presente. Há os insatisfeitos com tudo com o olhar unicamente no futuro, fonte de esperanças muitas vezes vãs.

Sou nostálgico e por mais que isso muitas vezes me doa, gosto de revisitar o passado, remexendo em guardados que representam os tempos idos. Livros, cadernos, fotos, documentos diversos: fazem lembrar épocas, lugares, pessoas.

Uma música que bem resume isso é "A Lista", do Oswaldo Montenegro. Assim:

"Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar


Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora


Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você


Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver


Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você"

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Exílio

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípios mas com fim...


(Fernando Pessoa: Hora Absurda)



Estou no abandono, algo fora demais, um lá-fora que não prevejo, não alcanço, não sei existir. Como posso estar em algum lugar sem sequer existir? Porque se pergunto a ti da minha existência, haverás de querer saber: quem sou? que quero? eu realmente quero alguma coisa? Perguntas retóricas que explodem no espaço, inútil vazio que criei. É isso. Não vivo para ti porque criado no vazio, um nada que não tem dentro não tem fora. Sem forma, sem esboço, sem conceito, sem mapa, sem luz, sem água. Como se fosse um deserto, um deserto em um sonho, algo que não posso dominar, sonhos não se evitam, eles vêm, e como vêm sonhamos e até pensamos existir. Aí que me engano, minto toda uma vida. Pois não há pai, mãe, irmãos, parentes até algum distante grau, e exatamente por isso não há heranças nem festas de aniversários. Parei no tempo, não tenho calendário, não tenho nada que me guie. Não há dia hoje, o mundo não se move em rotação e translação, não há noite, muito menos lua cheia. Assim: não há conceitos!

Vejo-me num torpor, como se ontem tivesse bebido demais. Mas não há o ontem. Ah!, como eu queria viver numa redoma de vidro, ser como John Travolta no filme da bolha. Mas não aquela (horrenda) bolha transparente; espelhada, para que de dentro eu pudesse ver sem ser visto. Observar a monotonia do mundo daqueles que não têm suas próprias bolhas. Ou não as usam porque não querem não sabem não podem não deixam não. Eu posso tudo. A embriaguez me autoriza a conquistar mundos, tão diferentes desse que tenho vivido, das verdades que inventei para suportar o que os outros chamam realidade. Eu sei que nada é real, que tudo é imaginação descoberta invenção ou mentira. Ou sonho, agora estou sonhando e não admito a hipótese de acordar. Durmo, não haverá quem me acorde, vivo só, um sonho num sonho, tudo o que suponho, agora é Edgar Alan Poe a visitar-me sorrateiro no delírio, com o corvo, com o assassino da rua Morgue, enfim. Por isso é mais fácil sonhar.

Posso inventar Mozart, Machado de Assis, Madre Tereza, Da Vinci, Alexander Graham Bell, agora todos os telefones estão ocupados, ligue mais tarde. Voaria, se tivesse asas, e não dependeria de telefonemas. Se a bolha voasse, ou flutuasse, fosse menos densa que o ar. Tudo que sobe desce. É a lei, Isaac. Percebo-te, no sonho, na bolha, no nada, não te perdôo por não tentar. Nesse delírio do qual pretendo tomar conta, vejo também Luís XV, Lady Di, Ayrton Senna, posso ouvi-los mas, incrivelmente, nada tenho a dizer. Vão-se embora sem que eu possa ao menos apertar-lhes as mãos. Sei que ainda não morri, estou no meio caminho onde há meia-volta, existe meia-partida. Posso retornar. Agora. Sempre. Com um olhar, com um gesto, com um grito. Mas não sinto dor.

Não quero agora voltar, não há tempo, não há definições, estou mesmo em outra dimensão. Dispenso as visitas, não mais recebo mortos em minha bolha, podem infectá-la. Tenho minhas defesas, imunidades, mas. A bolha é o mundo que eu enxergo, é a realidade mais próxima que posso tocar, sabes que invento qualquer coisa, ego cêntrico, mesmo, sem receios. Não ouço os chamados que me convocam de longe, o barulho assusta, o silêncio aliena. Tudo como parte de uma despedida que preparei para mim. Agora esse mundo irá implodir, ressurgir, decolar, ingressar nessa outra dimensão ou permanecer imerso entre a terceira, quarta, quinta era.

Sinto não poder agarrar o tempo, ceder o espaço. Andando como se no escuro, olhos fechados, um cego proposital, mas não de uma cegueira que percebe as coisas pelo tato, pelo sentido, orientação, algo como um recém cego, uma loucura quase que lúcida. Assim: depois de uma carreira bem servida, uma dose certeira, melhor que trepar, é como se diz, um gozo que não se compara mas. Não, não dá para mensurar essa loucura a tempo de se frear um caminhão desgovernado, um não-sentir de emoções que não se repetem. Digo sim, que sim, que poderia determinar o meu destino, sem controlar o tempo, o espaço, o dia. Como se fosse dia, manhã, ressaca, e já devesse estar n’alguma repartição autuando processos, sim, mas ligaria novamente para dizer que estou atacado da. Vejamos, poderia ser, dessa vez, vesícula. Que estou na cama, tomei três comprimidos (um deles azul) e li a bula sem entender muito bem dessas coisas de doseamentos e et cetera. Que vou ao médico, amanhã, sem falta pela manhã. Quer dizer que só irei trabalhar pela tarde. Que permaneceria em casa e ligaria quando estivesse melhor. Mas nada é real, já disse que não há ontem ou amanhã, porque o tempo.

O tempo me aborrece, a maneira como ele passa, o andar das horas, não há como precipitar o fatal desencontro. Assim como duas pessoas que se combinaram pelo correio sentimental encontrarem-se à porta do cinema, pipocas em uma mão, os ingressos na outra. Ela – a outra pessoa que pode ser ele, ela – não veio, não virá. O outro – que pode ser também a outra, ou A Outra – chora, compra CD’s novos, desestabiliza-se emocionalmente. Desencontro: A Outra, O Outro, referira-se a uma roupa azul mas, por distração, vestira verde. Nunca mais saberão que a vida poderia ter sido. Diferente talvez. São destinos, ou não.

Ah, talvez a doce hora da desistência, da renúncia final, o momento em que os loucos interrompem a também doce dor do suicídio, somente os loucos não vão adiante, porque há uma parte, um instante, um átimo em que o refúgio é a penúltima salvação, há sempre a possibilidade de novas tentativas. Mas nós, os loucos de um gênero muito específico, doidos de almas que erram e se entregam ao castigo do espírito: aqui jaz teu coração na mão depois de um beijo não dado. Melhor seria ter estado longe esses anos todos e não ter: conhecido, conversado, saído, beijado, amado, assim. Melhor sempre não viver, mais fácil seria. Viver? do quê? por e pra quê? simplesmente existir? sem respostas às insignificantes perguntas? acho que estou te entendendo, alma… Estás perdida querendo vir ao meu encontro. Pois venha, repouse, descanse, viva nesse meu corpo, afinal sem ele não sou, não sei ser, não existo. Sou apenas matéria. Reviva-me.

Eis por que me abandonei: como se fosse para não-existir. Desistir. Tudo bem, começo de novo a indagar essa inevitável inexistência. Não é minha culpa. Eu repito-me.

Amanhã será igual, aqui na bolha, porque não existirá. É esse amanhã que tu anuncias, e que vives, e que repete todos os passos um dia já dado. Tudo é o espelho do que já houve, isso é o que sei. A repetição de um único momento realmente vivido, o resto é tragédia.

Não sei mesmo por que continuar repisando, reprisando. Repetir e insistir são a mesma coisa? ou apenas insisto no que está errado? até que dê certo? até que não caiba ilusão? ilusão… eis um poema, enfim, um vago gesto mais rápido do que o olhar, ludibriando a mente, enganando milhões de neurônios que sobrecarregam-se nesse momento. Para não precisar mais existir, somente justificando a continuidade, através da repetição.

Digo e redigo: esse é o abandono a que me propus. Não há mesmo outras definições, elas apenas se confundem.

E eu insisto em existir. Desistindo?

(escrito em 23/03/00)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A dor em três tempos (final)

3 - UM OUTRO OLHAR

Caminhando às seis da tarde pelo centro da cidade, o mundo para ela agora não parecia, nunca mais seria, tão ilógico, irracional. Num tempo em que se permitiria novas experiências sem jamais magoar-lhe a existência, ela sabia, precisava, devia ser feliz. Retomando antigos hábitos, freqüentando outras rodas de amigos, até mesmo revisitando antigos namorados, amores perdidos, flertes um dia não correspondidos, possibilidades.

Por um instante após, na vida seguinte que vivera após a partida, recolhendo pelo chão do apartamento destroços e estilhaços da Última Grande Guerra, temeu estar só: algo como abandonada. Não estava, não era, sabia que não seria. Olhar o mundo através de outra perspectiva, havia o trabalho, o escritório, clientes impacientes, projetos e obras inacabadas, reformas, idéias pela metade.

Havia também o tempo de estar e talvez não ser. O eu sozinha, a noite de pizza descongelando no microondas, livros que se empilhavam à cabeceira da cama, de outras noites (um dia pensou) bem vividas, concluía: havia sua própria vida para viver.

Por essa época iniciou a reforma do apartamento, através de projetos desenvolvidos com a ajuda do sócio do escritório. Trocou de carro. Mudou o penteado, comprou novas roupas e gastou centenas em CD. Chorou ouvindo Ney Matogrosso, riu com desenhos que passavam aleatoriamente na tevê. Permaneceu horas ao telefone dando conselhos às amigas, também partidas de suas ex-dores.

Até o momento em que se viu, inevitável, quase imperceptível a possibilidade, diante dele: depois que tudo falaram, depois que nada mais era possível, depois de todos os pratos quebrados, cacos, feridas, cicatrizes também imperceptíveis somente aos olhos. Mas ali ela estava, onde, possivelmente não poderia precisar o lugar, momento, nada. Poderia fingir-se paralisada, cega, muda, ensaiar uma síncope cardíaca ou dizer olá-como-estás-foi-bom-te-ver-adeus. Nada. Palavras não se explicam, movimentos talvez. Não sabia também se sorria, se séria, se o que quer que fosse. Parou, simplesmente.

Vieram à luz os exatos mil cento e oitenta e nove dias havidos junto com ele. Primeiros encontros, beijos permitidos, mãos, noites de loucura e prazer. Viagens para Santa, de repente planos, de repente medos, fugas, infidelidade, abandono, volta, insistências, convivência. Nada mais que existisse. A boca, tantas vezes beijada, já nada falava, nada queria, não era.

Eram os segundos de uma vida, após uma nova, refeita, desta vez bem planejada. Não poderia haver novos momentos, reminiscências, tentativas frustradas. Não amaria novamente em vão. Para ele, quisera um dia não mais ser. Entretanto, era, fingia o não ser, o não existir, o não permitir. Entretanto, determinada, sabia esquecer, relegar às memórias nunca escritas uma história qualquer. Bem, não fora uma história qualquer, mas a partir de então faria crer que era. Teria que ser.

E assim foi. Passou, olhou, não disse uma só palavra, muda. Do contrário, receava nunca mais ser feliz.

1 - De Um Tempo De Partida, escrito em 19/02/99

2 - Derradeiros Finais, escrito em 09/03/99

3 - Um Outro Olhar, escrito em 07/03/99

domingo, 27 de dezembro de 2009

A dor em três tempos (segunda parte)

2 - DERRADEIROS FINAIS
 
Antes que tudo mesmo acabasse, antes que o dia fosse derradeiramente noite, antes que as horas se fizessem tristes, era preciso mudar: o mundo, o dia, as horas. Ele. Ela. Mudarem os dois.
 
Pressentia o abandono ainda que não acontecera. Porque difícil imaginar a continuação de coisas que já julgava mortas, perecidas. Fins-de-semana juntos, viagens para a Serra ou rápidas visitas aos pais numa cidade não muito distante de onde os beijos se deixariam ficar, teatros, leituras de fim de noite. Tudo lhe parecia muito repetido, desgastado. Não exatamente para ele, mas o que ela pensaria dele. Não conseguira ser o homem tão diferente que tanto preconizara, não sobreviveram nele atitudes ditas adultas, maduras, que aquela madura e adulta mulher, arquiteta, independente, esbanjava nos dias.
 
Pois o encontro daquela noite estaria previamente decidido: que não te amo mais, quer dizer, que jamais te amei, quer dizer, amo-te desnecessariamente, ela implacável, deixando-o ir para sempre, para longe, dobrando todas as esquinas sempre à esquerda voltando para onde partiu.
 
Tudo passava a ser o último: o último banho, o último perfume, a última vez que pegaria o elevador pensando nela como presente, como atual, como acessível, musa para sempre atingível. A última vez que entraria no carro e precisaria ajustar banco e espelhos porque ela era quem teria usado o carro pela última vez. A última vez. A última vez.
 
Na última sinaleira antes de seu amor cruzar o sinal partindo derradeiro, repassou a vida num segundo: apresentações, olhares, beijos, camas, dias e tantas noites sem a até então habitual insônia que sempre o visitava. Inútil reprisar os momentos em que fora feliz. Sempre seria a hora de não ser.
 
Estacionou o carro em frente ao clube pela última vez (última). Ela saindo da aula de natação pela última. Ele sorrindo e a beijando – beijo frio, pela derradeira vez. A última dose de uísque no bar, a primeira dose de uma nova fase que se instalaria após o doloroso rompimento que ele mesmo anunciava. O último coquetel que ela tomaria. Os decisivos sorrisos, conversas finais, beijos que sempre ficam para o fim.
 
Depois, caminharam pelo estacionamento de mãos dadas, olhares para baixo, “Estou com meu carro”, ela diz, “Estou com o meu também”, ele ri, ambos riem, ninguém mais percebe, sozinhos que estão. Se abraçam. Ela entra no carro, ele entra no carro.
 
Ambos partem pela última ou primeira vez.
 
(continua)

sábado, 26 de dezembro de 2009

A dor em três tempos

1 - DE UM TEMPO DE PARTIDA

Agora que conseguira deixar para trás os dias que jamais voltariam, propôs-se trégua: um jeito meio intrínseco de ser, evitando os lugares outrora freqüentados. Novas roupas também fariam parte dessa não repentina mudança, quando à noite permanecia revendo os melhores filmes da vida, analisando as possibilidades virtuais de reviver.

Comia demais, as solidões impostas sempre abastecidas de pizzas de viagem, baurus, comida chinesa (agora ele lembra: que ela tanto gostava) ou simplesmente saladas montadas com a feira feita na geladeira. Preparava os legumes de sua preferência, cozidos, ou crus ainda que pouco temperados, abrindo mãos por vezes do álcool em favor de sucos de caixinha achados no supermercado.

Assim pretendia viver. O trabalho era executado com a perfeição das horas, entretanto faltava-lhe amor àquilo que fazia. Importava? O salário poderia ser bom, o ambiente idem, colegas, um raro futebol no mês em que não chovia… Lá estaria ele, no último sábado, escondendo-se do jogo apesar de estar em campo. Vezenquando a bola, sua inimiga, o visitava, intimidando, convidando, quase sempre em tom de desafio. Sem pensar em tudo que ocorria ao redor, tratava-lhe rispidamente, afastando-a com um chute quase nunca certeiro, mas eivado de dor. Doía-lhe o pé, o tornozelo, não tardava em deixar o gramado reclamando tais dores.

Quando arriscava algum programa noturno, não ia além do protocolar cinema, um chope em algum pub escondido, um simples passeio pela noite desafiando perigos. Por mais que a si evitasse, deixando para trás o convívio um dia social, impossível deixar de ser reconhecido por alguém que abanasse, estende-se um sorriso, às vezes a mão para um aperto, o rosto para um beijo, e sempre os comentários: “Estás mais magro”, “Cortaste o cabelo?”, “Nunca mais viste a…?”. Pouco falava, procurando não estender conversas que ensejassem eventuais convites para o retorno de jedi, parecia claro que ele estava fora.

Uma viagem para deixar pelo caminho os restos das coisas que não foram destruídas pela dor nem serão apagadas pelo tempo: era o que planejava, sem promessas, sem cálculos, apenas planos internos que não necessitavam de maiores explicações. Seu descomprometimento era algo que perduraria no novo estado de espírito, mais impuro depois do mês da despedida.

Tanto seguira o tempo da espera, do desejo, da lembrança, da dor. Apagar tudo da mente e do corpo talvez fosse a maior necessidade imposta. O resto eram os dias do tédio concentrado em si.

Na nova atmosfera criada, ainda frágil, como se pode notar, o reencontro fora inevitável. Obra de um acaso que jamais se importou com dores infindas ou mentes que se desequilibram: pois faltava aquele equilíbrio de uma emoção que se dissipara no ar, o mesmo ar irrespirável a que pensou estar subjugado. A fuga, agora, era inútil, além de covarde. O enfrentamento seria supor uma guerra que não mais nunca existira. Indiferença? Abandono? Silente se fez, palavras não mais possuíam o condão de traduzir um só gesto que fosse.

Ela deteve-se diante dele. Hesitação, porém sem êxito. Melhor o momento que não existira, uma vida a menos vivida no mundo. Impossível negar. Um nada no vazio é apenas a negação do que inexiste. Trevas foram feitas para ser evitadas. A luz daquele dia não. Não havia sóis para iluminar, nem nuvens para escurecer. Nada, de repente apenas os dois. Um mundo? Talvez. Um átimo para se decidir o que. Não fazer, omissão, talvez pedir socorro, socorrer-se de fatores externos para nunca mais existir no momento. Desistir, enfim. Um segundo é muito tempo para quem sempre planejara fugir. Disso ele sabia.

Prostação para além daqueles dias que ficaram pesando-lhe na retina, como um filme que insiste em reprisar diante de si.

Em desespero, a alma lhe deixara inquieto, com seus demônios habitando o Porão dos Pensamentos Proibidos. Havia ultrapassado a porta dos limites impostos, jogara-se no nada, mãos tateando o inexistente ponto futuro. Quedas só se fazem se há o chão logo abaixo. Agora permeava o irreal, num poço sem fundo, nos sonhos povoados na infância, um único pesadelo medonho, que prenunciavam a morte da coisa e/ou seu ressurgimento, mais feroz, e sempre com maior dor.

Entretanto, fingia-se ainda real: era dia e era madrugada, chovia e fazia sol, havia barulho mas também o silêncio anônimo que acusava um sumário julgamento dos fatos, obra do acaso nem tão ocasional assim, ele poderia saber. Porque nada seria inevitável se pudesse mesmo prever. Não havia premonições em sua vida, mas um certo talento (pode-se dizer assim) para revisitar as dores submersas no incansável consciente.

Juntou as mãos num movimento quase como uma oração. Os olhos fechados tentando penetrar na mente inquieta. Bate mais forte coração, a alma trocou de casa, o amor mudou mesmo de lado. Seria até impossível respirar, conviver, enfim. Se tudo fosse um jogo (não o futebol, alegoria de seu desamor), talvez pôquer, ou estava diante de um blefe ou não pagando pra ver, mais possivelmente pagando para não ver. Em fuga para uma outra dimensão onde não precisasse do amor, já sem alma, despudorado do sentimento.

Embora quisesse reagir, poderia fazê-lo, não houvesse o sempre medo imposto na relação: eis que uma vez, ou tantas vezes, ele podia agora lembrar-se, fora acusado de covarde. Seria mesmo covardia não querer mais a dor? Até quando deixaria de respirar? Por que mesmo estava negando a si o momento? Quem lhe disse que era inútil renunciar? Sabia da escolha e da renúncia, do nascimento e da morte. Amores e dores ressuscitam? Jamais deixam de existir? Somem, dissipam, esmaecem? O abandono das idéias era no momento o que mais lhe doía.

Havia portas mas não se seguiam labirintos. Chaves sem segredos, nada mais a esconder. Exposto mesmo ficara, e ela coadjuvara com o instante em fingir não existir. Mais fácil o fingimento quando não se sabe se, por que ou até quando existir. Pôde apenas por mais um segundo somado a todos os outros de sua frustração, mas num único e solitário segundo, perceber-se feliz. Era a hora de não ter sido.

Não foi. Não amou, nem foi feliz pelo resto de sua vida.

(continua)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal

"Garoto, que dia é hoje?"

"Ora, senhor! É manhã de Natal!"

Foi um diálogo mais ou menos assim que Charles Dickens marcou sua obra "A Christmas Carol ", romance escrito para pagar dívidas.

Escrito em um mês, justamente pelo aperto financeiro de Dickens, foi publicado a primeira vez em 19 de dezembro de 1843. Nela, é contada a história do avarento Ebenezer Scrooge, que não gosta do Natal. Trabalha num escritório em Londres com seu empregado Bob Cratchit, pobre, pai de quatro filhos, com um carinho especial pelo frágil Tim, que tem problemas nas pernas.

Na véspera de Natal Scrooge recebe a visita de seu ex-sócio Jacob Marley, morto havia sete anos naquele mesmo dia. Marley é um espírito errante, sem paz, que passa seus dias a arrastar correntes e lamentarnão ter sido bom nem generoso em vida. Revela que para Scrooge ainda há uma chance, através da visita de três espíritos.

Os espiritos representam, sucessivamente, os natais passados, o natal presente e o natal futuro. O primeiro espirito faz Scrooge reviver os natais de sua infância e juventude, quando ainda amava o Natal.

O segundo espírito mostra a Scrooge as celebrações do presente, incluindo a humilde comemoração natalina dos Cratchit, onde vê que, apesar de pobre, a família de seu empregado é muito feliz e unida.

O terceiro espírito, apresenta-se como uma figura alta envolta num traje negro que oculta seu rosto, deixando apenas uma mão aparente. O espírito não diz nada, mas aponta, e mostra a Scrooge sua morte solitária, sem amigos.

Depois de tais visitas, Scrooge cai no sono e acorda somente pela manhã. E então, abrindo a janela de seu quarto, vê o rapaz à frente de sua casa e faz a pergunta destacada no início desta crônica. Ciente que que as visitas dos espíritos duraram apenas uma noite, descobre que ainda é tempo para a bondade e generosidade.

Passa a celebrar alegramente todos os natais como ninguém.

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Não sou lá muito de Natal, mas já guardo uma certa tradição nos últimos anos, com família na praia e, desde 2004, com filha para presentear e viver as fantasias do velho de longas barbas brancas! Faz parte, como se diz por aí. E Natal é isso aí mesmo: cada um fazer o seu melhor.

Feliz Natal a todos!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Vésperas

E diz o ditado que o melhor da festa é esperar por ela. O melhor da viagem são os preparativos. O melhor do beijo é o olhar desconcertante que o antecede. Talvez. Talvez não o melhor, mas o símbolo de algo prazeiroso.

Amanhã é Natal, dizem. Portanto, hoje é a véspera. Conclusão nada genial, eu sei. Mas por que celebra-se a véspera de Natal com uma ceia? Por causa do melhor da véspera? Papai Noel que vem na madrugada no seu trenó ou num foguete (teoria da dona Irene)? os presentes ao pé da árvore natalina? O almoço em família do dia 25? O que é o melhor da festa, ou o símbolo de algo que nos dá prazer?

Eu sou parte de uma reciclagem de atitudes - não de pensamentos. Não curto Natal, já passou minha fase. Mas como tenho uma filha pequena, então necessário manter aquela chama, aquela fantasia gostosa de se esperar o velhinho barbudo, vindo da Lapônia e que faz "hohohohohoho".

Com tanto consumismo por aí, difícil desagregar o bom velhinho do impulso comercial da data. Eu tinha dificuldades de entender como o Papai Noel fazia brinquedos que chegavam com a marca da Estrela. "Eles põe depois", diria dona Irena. Explicação razoável.

Mas eu falava da véspera. Em que momento a véspera de Natal confundiu-se com a da noite de Ano-Novo. De uns anos para cá, talvez uns quinze ou vinte, tenho notado mais fogos de artifício na meia-noite do dia vinte e quatro pro dia vinte e cinco. Como uma prévia do ano-novo. Com a tal da ceia saindo só à meia-noite.

Antigamente não parecia ser assim. Talvez porque fosse antigamente e antigamente as coisas têm que ser diferentes, ou talvez porque a memória depois de duas décadas começa dar sinais de franco desgaste. Mas não lembro dessa semelhança do dia 24 com o dia 31, a não ser porque caem no mesmo dia da semana! Sei lá, deve ser a banalização das datas.

Em todo o caso, é véspera de Natal, e que todos a aproveitem do melhor modo para si.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Saindo de férias

Pois chegam as festas de fim-de-ano e isso significa para mim férias: no sentido de parar tudo, fechar o escritório, ignorar o saite do Tribunal de Justiça e as ligações de clientes. Ir para a praia e dedicar-me ao ócio, curtindo a Helena em tempo integral.

E é isso que faço, a partir deste dia 23, recolhendo-me a pequeno balneário de Arroio do Sal para ficar á toa. Uma pilha de livros para ser lidos, filmes para ser vistos, churrascos, cervejas, famílias, encontrar os amigos (os mesmos de Porto Alegre, só que na praia e no ócio), brincar com a filhota, enfim, curtir.

Levo o notebook tão somente para manter a escrita em dia. Todavia, sem acesso direto à internet, pois não aderi à tecnologia 3G e meu Blackberry navega com muitas restrições.

Mas fuçando esses dias na funcionalidade do meu blog, descobri que é possível postar antecipadamente, programando a publicação da crônica. Algo como programar os pagamentos direto no saite do Banco. Um cheque pré-datado literário, sob certa ótica.

Esta crônica, por exemplo, de anúncio daquilo que virá, foi escrita no dia 15, mas (se o blog não me sacanear) só irá ao ar no primeiro minuto do dia 23, quando possivelmente já estarei na orla. Assim como as crônicas de Natal e Ano-Novo, que escrevi esses dias atrás.

Por isso, o trabalho duplo durante esses dias que antecederam este que tu me lês: não posso desapontar meus cinco ou seis leitores. Decepcionar uma multidão é normal, até mesmo JC não agradou a todos. Mas um público tão seleto merece um carinho especial!

Volto oficialmente dia 6, junto com os reis magos: Baltazar, Belchior e quem mais mesmo?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Universo do teu corpo

“Eu te abraço corpo imerso em teu corpo
Em teus braços se unem versos à canção”


(Taiguara: Universo do Teu Corpo)

Tanto quis te achar, procurando-a desesperadamente em minha memória.

Como eras, anos atrás? Meio hippie, meio punk, estudante de publicidade com sonhos yuppies. Haviamo-nos conhecido numa festa universitária onde rolara todas as doses de heroína possíveis, eu estava de cara, lembra? Chamavam-me careta. Até pode ser, não sabes, ainda sou, sempre serei.

O uísque que não mais bebo, àquela época, incendiava meu corpo. Hoje, talvez mais sóbrio e mais maduro, viajado, anos de praia, talvez eu tenha me reencontrado. Pronto para te redescobrir, reinventar, re. Saberia facilmente achar teu esconderijo, nos anos que se antecederam à viagem. Já temo não possuir a mesma eficácia de antes.

Preparo as respostas, antes que perguntes:

— Por que voltaste?

— Desisti. Não encontrei no verão o apogeu da primavera, que Gilberto Gil me falara.

— Nunca conversaste com Gil.

— Em meus sonhos, nos delírios, nas vezes que quis.

Estaremos sentados em algum café do Porto, tomando capuccino e lendo revistas antigas.

— Amaste?

— Nunca consegui, depois de partir. Descobri que pessoas, são iguais, talvez por isso…

— O mundo seja redondo.

Sorri, conclusiva, imaginando onde andou minha mente comandando o corpo. Que jeitos, que costumes, que praias, que anos eu tenha vivido. Estás curiosa, não me dirás. Falarás de ti.

— A agência vai bem, fechamos algumas contas exclusivas.

— Tenho uma cachorra chamada Dela.

— Comprei um Renault no ano passado, acho que vou trocar pro Passat.

Etc.

Serão vinte horas do dia do reencontro. Apenas nos falamos, primeiro por telefone, depois duas vezes na corrida do dia. Estavas atrasada para duas ou três reuniões, o celular interferindo a todo momento.

— Agora desliguei. Não tocará. Reformei o apartamento, não reconhecerias…

— Não reconhecerei.

— Achas que te convidarei para subir, tomar um café ou trepar mesmo?

— Sei que sim.

— Que sim… - repetirás, enquanto vasculhas a bolsa, procuras cigarro.

— Voltaste mesmo a fumar… Li em algum lugar que pessoas fumam para suprirem alguma frustração sexual.

Nada falarás. Ris, nisto não mudaste. Mudaste o cabelo, as roupas, os projetos pessoais, mas ainda vejo, sei que és tu. Que me queres. Que te quero.

— Não é má idéia. — dirás, ao aceitar o convite para o teatro. Já será outro dia. Desta vez falarei de onde estive, quem conheci, quem.

— Não sei se quero saber de uma improvável extensa lista de conquistas amorosas — me privas assim do exibicionismo sempre em mim tão natural.

— Tudo bem, não falo.

Já saímos do teatro e são mais de vinte e duas horas.

Não sei bem, mas estará chovendo. Levarei minha capa de chuva, protejerei-te até o carro, pedirás que eu dirija, eu não aceitarei, mas te darei um beijo que tu não poderás evitar.

— Claro que posso.

— Não serei mais futuro. — digo.

— Nem passado, apenas seja.

Sou. Estamos em um simpático bar achado ao acaso. A crooner canta MPB, passo bilhetinhos encomendando canções, há mais casais no local, onde pessoas se acham, se procuram, sem qualquer ordem.

— Viajaste, rodaste o mundo, agora voltas… — comentas, evasiva, nada que não seja passado.

— Retornei, enfim.

— Para onde?

— Para ti.

— Cidade turística! — ela responde, cacófato, trocadilho.

A cantora faz uma pausa, desafio-te. Com um sorriso, aceitas o jogo.

— Gosto do lado lúdico da sedução. — dizes, apenas, antes de levantares da mesa.

Peço mais uma garrafa de vinho enquanto afinas o violão, sentas no banquinho, ajeitas o microfone. O dono do bar te anuncia, dedilhas, me olhas, não me enxergas. Cantas, enfim: Eu desisto, não existe aquela manhã que eu perseguia…

Ao final da canção, o público pede bis, quer mais, não mais do que quero, não mais do que teu corpo. Enfim me acho, porque em ti me procuro.

De lá saímos, rindo muito, incentivados pelo álcool, beijos, não apenas beijos, mas mãos, toques, corpos, universos. No teu apartamento, realmente reformado, que realmente não reconheço. Não deixaste vestígios, sem procuras, um crime quase perfeito.

Acordo, manhã gelada característica desse mundo gaúcho, diferente de outros invernos passados longe de ti. Dormes sonhos preciosos, teu cabelo espalhado pelo corpo e pela cama, levanto e indago o sol que ousa se apresentar.

Deixo-me ficar, deixa-me ficar. Como Bilac:

“O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

Nosso futuro torna-se incerto, há uma vaga canção em que pressinto nossa história, a mesma que cantaste aquela noite, lá no bar. Da tua voz não mais me esqueço. Fico, permanecerei para sempre.

— Não me deixarás?

— Não te deixarei.

— Nem pelo mundo, pelas estrelas, por outro sol que nascerá?

— Nem pela existência, pela nau que a vaga naufraga, pelos beijos demorados.

Sorri, beija-me, somos o meu, o teu corpo. Nosso.


(primeira parte, 19/03/99 00:58; segunda parte, 22/03/99 08:52)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Férias, feriados, recessos

Era para eu estar em férias, hoje. Aliás, desde a hora em que fechei o escritório na sexta-feira (o que ocorreu lá pelas cinco e pouco da tarde). Mas não é assim que as coisas acontecem na vida de um profissional liberal. Vou até o dia 23, inobstante a suspensão dos prazos processuais, sujeito a retornar no dia 28 e trabalhar até o dia 30 - só parando, mesmo, para o Natal e Ano-Novo!

Sim, talvez digam "como qualquer trabalhador". Negativo. "Qualquer trabalhador" que tenha um vínculo empregatício e esteja no emprego há mais de um ano (estou há 14 nessa vida), pode tirar férias. Trinta dias.

Não sei o que são trinta dias de férias. Trabalho desde os 19 anos, portanto há 20 anos no labor. Nunca tirei 30 dias de férias. Tive períodos de 20 dias, no máximo que, com os fins-de-semana, já chegaram a 23. Os outros dez em geral vendia. Isso até ingressar na advocacia.

Aí acabou a paz. Em geral final de ano estou correndo atrás de dinheiro de cliente e que vem a ser, no final e em participação percentual, meu também. Essas coisas parecem se precipitar para o fim-de-ano.

No entanto, fazia alguns anos que não me via "obrigado" a trabalhar no "entre-festas". Sinônimo de que há trabalho, ou de que, ao menos, ele aparece em horas impróprias.

Mas nem tanto: tirante o ócio, esses dias pouco me dizem. São tão iguais. Por isso um pouco de agito faz bem.

E a mente não para: estarei entre Natal e Primeiro de Ano maquinando novas coisas para 2010. Como sempre.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Letras e canções

Sou um amante de MPB: letras geniais contam a vida de um e de todos, por isso tantas músicas que tocam e nos tocam.

É assunto para um só blog, se quiser. Há inúmeros exemplos, e os mais fatais são aqueles que falam das dores e amores, aquelas tais coisas do coração.

Isolda, a quase desconhecida compositora que serviu a Roberto Carlos, escreveu a fatal e definitiva "Um jeito estúpido de te amar", um algo que descreve tantas pessoas e tantas relações que andam por aí - e não estou imune a ela.

Eis a letra e, em negrito, as frases que considero definitivas:

Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
E de dizer coisas
Que podem magoar e te ofender
Mas cada um tem o seu jeito
Todo próprio de amar
E de se defender


Você me acusa e só me preocupa
Agrava mais e mais a minha culpa
E eu faço e desfaço
Contrafeito
O meu defeito é te amar demais


Palavras são palavras
E a gente nem percebe
O que disse sem querer
E o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber
Que a nossa vida em comum
Depende só e unicamente
De nós dois


Eu tento achar um jeito pra explicar
Você bem que podia me aceitar
Eu sei que eu tenho um jeito
Meio estúpido de ser
Mas é assim que eu sei te amar

sábado, 19 de dezembro de 2009

Dor

(conto escrito em 16/08/00)

Estou entorpecido por um sonho intranqüilo. E no descaso de meu corpo não percebo a visita de anjos ou almas divinas. Há isto sim um desconforto, que num espasmo sem saber esse corpo preguiçoso se joga para o lado. Não sabendo o motivo, e não podendo evitar o domínio do insubconsciente, sonho. Algo por demais real para uma dor que deveria ser irreal. No delírio não tenho força, não conheço do sorriso que fora meu um dia. Mas nada fora mesmo um dia, meu, de qualquer pessoa. Porque não se existia, não,se estava aqui ontologicamente dizendo. Sou, enquanto Ser, como deveria ter sido.... não, não, como posso ser.

Mas dói porque não evito. Dói porque não queria. Dói porque longe. Dói porque desconhecido. Dói porque inevitável. E em sonho mais uma vez perco. Dói.

Tudo bem. Já acordado percebo que era mesmo um sono inquieto e deprimido. Uma tristeza que veio do dia, da noite, da madrugada e do álcool. Que veio da vontade de nada fazer evitando assim que qualquer coisa desse errada. Refletiu em mim, no in, no sub.

Agora sei pertencer a esse plano material. Por isso racionalizo. Nos meus sonhos medonhos não há uma princesa que se queda numa torre/casmorra aguardando seu herói. Julieta não me quer como seu Romeu. Sou Dante que jamais chegou a um dedo de Beatriz. Amo o insondável, o inalcansável, o impossível, o instigante desejo de poder sentir a dor de desejar e não ter.

É um filme, um filme “B”, noir que me vem à cabeça durante o sono, dirigido pelo insub e estrelado pelo desejo reprimido de perder. Não exatamente perder, só se perde aquilo que se teve um dia. Pelo de deixar de ganhar... também não, só se ganha aquilo que será seu. Ela jamais seria minha. Verdades que se perpetuam no tempo e no espaço.

Agora digo: que sonho é esse que me revela o desejo reprimido de não alcançar aquilo que já não consegui no plano material? aquilo que já ficou além de minhas forças, de minha volúpia, de meu desejo, do prazer... um prazer meio doido de usar e ser usado?

Que sonho louco! Que sonho, louco. O quê? sonho louco?... muitíssimo doido o insub que faz tomadas irreais numa tela sem o sucesso que pretendia.

Dói saber que penso assim e não posso fazer nada contra.

Esquecer, não querer, não pensar, não grilar, fingir, se distrair, almejar... são outras possibilidades, outros verbos que, estes sim, refletem vontade, ao contrário de meu mordaz inimigo noturno Sonhar.

Ainda não entendo: na minha infância bruxas vinham em pesadelo. Agora que sou adulto elas vêm na parte amena do sono, porém deixam uma amargura na boca e um silêncio de filme europeu que ecoa nas paredes quando acordo. E não partem em vassouras sob a luz da lua cheia. Saem de fininho, sem esboçar sequer um sorriso, mas transmitindo uma tristeza que também sinto, Tristeza essa que há de ter um significado muito particular, uma razão estranha e instrínseca a todos que a cercam… mas dói ver alguém sofrer mesmo em sonho. Dói saber que sofro.

Dói ser real.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Ah, o judiciário...

Realizada uma pesquisa para aferir da comunidade o grau de conhecimento da justiça brasileira, a mesma revelou que apenas 8,5 % dizem realmente conhecer a instituição. Dentre as mulheres, estão os que menos acessam o Poder Judiciário e que detém mais reservas quanto à justiça.

O resultado dessa pesquisa é preocupante mas não surpreende! As pessoas, de um modo geral, fogem do Poder Judiciário. Muito ouço no dia-a-dia da minha profissão a famosa frase "não quero me incomodar", como forma de justificativa de alguém para não demandar em juízo visando uma reparação qualquer.

Costumo brincar com os clientes dizendo que eles não irão se incomodar, eu é que sou pago para me incomodar no lugar deles. E de fato me incomodo! Um determinado assunto trazido por um cliente a meu escritório, resultando na propositura da ação competente, me acompanha por diversos anos - dois, três ou quatro para os casos mais rápidos, coisa de década para os mais demorados. Ainda pende de resolução a primeira petição inicial que assinei como advogado, em 30 de julho de 1996!

Por tudo isso eu digo que o advogado se apega ao problema de seu cliente como se próprio fosse. Evidentemente, falo por mim, mas sinto dos colegas o mesmo sentimento.

Não vi na rápida notícia sobre a pesquisa informação sobre a impressão que os próprios operadores do direito têm do Judiciário. Garanto que a desilução não seria muito diferente, só que muito mais justificada por aqueles que conhecem a instituição no seu dia-a-dia.

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O Mandado de Segurança impetrado contra a posse do Deputado Marco Peixoto teve sua liminar denegada pelo Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, em virtude de ilegitimidade passiva dos órgãos que integraram o pólo ativo da ação, restando neste pólo somente o Prof. Eduardo Carrion - entendeu o magistrado que o Mandado de Segurança não era o meio processual adequado para aquelas entidades demandarem em juízo.

As notícias veiculadas na mídia foram, em síntese, no sentido de que o Judiciário negou liminar à ação proposta, o que impediria a posse do hoje auditor. Não entra em detalhes - até porque em geral jornalista quando entra nas minúncias jurídicas de uma decisão judicial acaba falando bobagem.

O que eu não entendo é por que motivo a imprensa gaúcha omitiu que, nessa mesma decisão que denega a liminar de segurança, o Desembargador determinou a inclusão, no pólo passivo, da Governadora do Estado!

Será que foi por que não leram todo o despacho, ou o quê?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tá reservado

Um dos tantos males da humanidade é a falta de educação das pessoas. Pelo menos sob a ótica da educação de outras pessoas, ou ao menos daquilo que o bom senso diga que são os bons modos.

E uma das situações em que muita gente demonstra sua total descortesia se dá em eventos do porte de formaturas e espetáculos diversos sem lugar marcado.

A menos que se chegue muito cedo e o local se encontra com zilhares de lugares disponíveis, em geral quando chegamos a um espetáculo ou formatura encontramos aquelas fileiras de cadeiras com bolsas, pastas, celulares, chaves, enfim qualquer objeto em cima. Tenta sentar numa dessas poltronas e ouvirás: "Tá reservado!"

Como assim, "tá reservado"? A casa trabalha com reservas? Estamos falando de idosos protegidos pelo Estatuto do Idoso? Pessoas portadoras de deficiência? Não. Em geral elegem um mico na família para chegar mais cedo e guardar lugar para toda trupe, dando direito a pessoas tão iguais o direito de chegar no espetáculo meio segundo antes de começar, que seu lugar vip estará garantido!

Ora, o que dá a essa pessoa o direito de ver assegurado seu local em detrimento de outras que chegaram ao local muito antes dela? Na minha hipótese imaginária, o camarada que quer arranjar confusão, ao se deparar com o aviso "tá reservado", simplesmente, tira os objetos que demarcam a poltrona e senta, dando de ombros à tentativa de reservar. Com o canto do olho e o ouvido a postos, ouvirá a pessoa falar ao celular "o problema é que um animal sentou no lugar que EU reservei".

A má educação é justamente de quem "reservou" o lugar e o animal é o cara que chegou em horário aprazível e só deseja sentar para assistir ao espetáculo? E se contar o episódio para os amigos depois ainda vai ser chamado de mala, chato: "custava sentar em outro lugar?"


Esse é outro dos males da humanidade: quem quer fazer as coisas direito é taxado de mala!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Mas e os festivais?

Acabaram-se os festivais da tevê.

Os festivais da TV Record, TV Excelsior do final dos anos 1960, a TV Tupi dos anos 1970, depois os festivais da Globo da década de 1980.

Os festivais que mudaram a música popular brasileira, que popularizaram Elis, Edu Lobo, Taiguara, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Os Mutantes, Oswaldo Montenegro, Ivan Lins, Guilherme Arantes e outros tantos sumiram da tela da tevê.

Não cabem nesse mundo moderno que se vê tudo isso pelo youtube!

Em 2000 a Globo tentou resgatar isso, através do Festival da Música Brasileira, apresentado pelo Serginho Groissman. Para variar, a melhor canção não venceu ("Tubaína", de Fernando Chuí, ficou sequer com uma menção honrosa). "Tudo bem, meu bem", um rockinho de um gaúcho arranjado pelo dinossauro Carlini (ex-Tutti Frutti, banda da Rita Lee pós-Mutantes) foi a vencedora.

Mas sequer chegou perto da edição anterior, quinze anos antes, em que a Globo depois de três anos sem promover festivais, espalhou pelo Brasil o "Festival dos Festivais", em 1985. Emílio Santiago foi consagrado como melhor intérprete e o festival revelou para o país a então jovem Leila Pinheiro, com a canção "Verde", de Eduardo Gudin!

Lembro perfeitamente que fiquei dividido entre as maravilhosas "Mira Ira", do excepcional Lula Barbosa em parceria com o Grupo Tarancón e Mirian Mirah, e "O Condor", de Oswaldo Montenegro. Acabou vencendo a popular "Escrito nas Estrelas", interpretado pela apoteótica Tetê Espíndola, a preferida da mídia e, quiçá, dos bastidores do Festival. Mira Ira ficou em segundo, "Verde" em terceiro e Oswaldo Montenegro, que colocou um coral de cinquenta negros no palco para cantar, saiu de mãos abanando, possivelmente por já ter gasto sua cota de premiações nos festivais da Tupi de 1979 e da Globo Shell de 1980!

Aquele Festival ainda marcou por ter Cida Moreira cantando um simpático chorinho ("Novos Rumos", ou algo assim). Impossível não lembrar o grupo Joelho de Porco cantando "A Última Voz do Brasil" e o impagável Lìngua de Trapo com "Os Metaleiros Também Amam".

Creio que foi em 1981 que a preferida do público - "Planeta Água", de Guilherme Arantes, que levantou o Maracanazinho, viu Lucinha Lins interpretando o gaúcho Jerônimo Jardim com "Purpurina" levar o primeiro prêmio e uma das maiores vaias já vistas na música popular brasileira!

Falo disso de memória, tocando minhas impressões do passado apenas de ouvido. Não consultei sites. Bom ter essas coisas na memória, lugar de honra que os festivais ocupam para aqueles que curtiram a música dos anos 1970 e 1980!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os ciclochatos

Não tenho nada, ou ao menos não procuro ter nada contra as convicções das pessoas. A famosa frase de que gosto é como bunda, cada um tem a sua, possui seu viés de verdade - e assim como os glúteos, os gostos e opções pessoais também são alvo de olhares, críticas, admirações e et cetera!

O que não suporto é quando essas convicções vem acompanhadas da excelsa virtude: somente aqueles que partilham de tais ideias é que garantirão seu lugar no paraíso!

Na ZH deste domingo, 13/12/2009, o jornalista Moisés Mendes publica matéria sobre pessoas que optaram, à mercê do trânsito e sua legislação, a se locomover de bicicleta, ao invés de usar automóvel, motocicleta ou transporte público.

Até aí tudo bem, até acho legal quem tem o perfil para isso - sim, é uma questão de adequamento da pessoa ao meio. Eu não poderia usar da bicicleta diariamente para ir ao trabalho e sim, boa parte disso é porque simplesmente não quero.

O que não aceito é deslocar a virtude somente para aqueles (ainda poucos) que pedalam até seus destinos. A matéria fala em trânsito brutalizado, selvageria no asfalto e má educação no trânsito.

Inobstante tudo isso ser verdade - os acidentes, os acintes, os péssimos motoristas que jorram nas artérias da cidade, a matéria notadamente mostra como verdadeiros anjos e detentores do modo de vida de Primeiro Mundo aqueles que utilizam suas bicicletas como meio de transporte preferido!

Também não deixa de ser real a falta de espaço para deslocamento útil das bicicletas. Concordo. A Prefeitura há anos nos deve um planejamento nesse sentido. Agora, por favor, não rotule de forma maniqueísta as pessoas como boas ou más simplesmente porque andam de bicicleta ou de carro!

Nada mais chato que a apologia de algo feita por alguém que entende que a virtude está somente do seu lado. Primeiro foram os vegetarianos malas, que vão a churrascos para ficar enchendo o saco de quem gosta de se divertir e não renega sua natureza carnívora. Depois, vieram os ecochatos, que estão por aí, perturbando a paciência de quem leva cinco segundos a mais para lavar as mãos.

Por exemplo, nada mais chato que um ex-fumante fazendo apologia contra o cigarro. Não sou fumante, tive minhas experiências tabagísticas entre os 19 e 23 anos, por conta de situações bem específicas, mas aquilo não fazia parte de mim, tanto que o cigarro não pegou. Mas não tenho nada contra quem fuma. E não suporto aqueles discursos politicamente corretos. Aliás, ser politicamente correto é um porre!

Assim, do mesmo jeito é essa "nova onda" das bicicletas! Para justificar a virtude do seu lado, a referida matéria ainda cita o aparente infalível argumento de que no Primeiro Mundo é assim, pelas ruas de Amsterdã e coisas do gênero. Parece mesmo que somente os europeus prestam, ser brasileiro é coisa de terceiro mundo! Bah!

"A falta de educação no trânsito de Porto Alegre é sentida por todos, pelos ciclistas e também pelos pedestres", cita a matéria o comentário de um ciclista. Ora, o trânsito e a legislação correlata é feita em função dos veículos automotores que trafegam pelas vias e dos pedestres que por ela circulam! Já dirigiram no trânsito a 40 Km/h com uma frágil bicicleta te atrapalhando a 8 Km/h?

Os condutores de veículos automotores são reféns da falta de sinalização para bicicletas. Verdade que não respeitam nem faixa de segurança (e aí me lembra essa campanha mal-feita sobre as faixas), mas o que acontece com um motorista que albarroa uma bicicleta no meio da Protásio Alves, tão somente porque esta fez uma conversão sem observar o trânsito intenso de automóveis?

Sou a favor das ciclovias e também da diminuição dos carros nas ruas. Mas por favor não me venham dizer o que é ser bom ou ser mau: além de chato, é tremendamente maniqueísta!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Me deixa falar

Tudo bem, eu sei que a língua culta manda que o título desta crônica seja "Deixa-me falar", mas esqueçamos o preciosismo: muitas vezes o português "inculto" é mais impactante que o outro.

Nasci com uma necessidade orgânica de me manifestar, de me fazer ser visto, ouvido. Há quem diga que isso é querer aparecer, e não se pode descartar totalmente essa hipótese: uma necessidade vital de dizer a que veio.

E aí eu fico por aqui e por ali, procurando espaços, muitas vezes titubeante, como se tateasse no escuro de olhos fechados. Vou encontrando lugares, nichos, momentos, e vou deixando minhas marcas, nem sempre da melhor maneira possível, tampouco em algumas delas sou lembrado por aspectos que possa me orgulhar.

Lembro que gostava muito de ler os textos dos livros didáticos em sala de aula. Chegava a fingir desinteresse pela leitura de outros para que o professor, pensando que eu não estava prestando atenção, me chamasse para ler! Era o primeiro a ir para a frente da sala ler o que havia escrito nos exercícios de Português - mesmo com minha voz horrenda de adolescente.

Cresci, a voz se torno grave, poderia ser locutor, não fui, não sou, quem sabe serei um dia? Não sei. Sigo escrevendo aqui e acolá para deixar minhas impressões gravadas. Vivesse nos tempos das cavernas, e eu seria o piteco da vida que desenhava nas paredes escrevendo as histórias de uma era.

Sempre gostei de escrever para a coluna de cartas de jornais. Em Ijuí cheguei a contribuir, eventualmente, com artigos para um jornal local. Demorei muito para engrenar no blog, todavia. Talvez por falta de leitores, mas algumas pessoas garantem que me lêem! Uma das vantagens de se ter pai, mãe, irmã...

Não vivi a época da ditadura como adulto, ela apenas povoou minhas impressões da infância dos anos 1970 (vamos combinar que nos anos 1980 a ditadura era muito cor-de-rosa, ainda bem), mas se tivesse vivido com a goela que tenho hoje, certamente teria sido preso, exilado. O sangue político ao menos corre nas veias, algo que guardo com bastante carinho.

Por enquanto vou falando, falando, falando. Se eu fosse italiano e estivesse no mar, atravessava o oceano "parlando, parlando, parlando".

***

Ótimo o aviso do LFV na Zero Hora de hoje: não tenho, nunca tive e nunca terei twitter. Nem sei direito o que é twitter!

Compartilho, apesar de "ter" o tal tuíter. Mas minha inteligência não alcançou essa forma de comunicação - cento e quarenta caracteres é muito pouco para que insiste em não se calar!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma valsa, uma canção e George

Em "Uma Valsa para Bashir", o israelense Ari Folman produz um documentário a partir de impressões pessais de memórias de guerra, recuperando fragmentos perdidos de sua lembrança da época em que lutou por Israel na Guerra do Líbano dos anos 1980, através de entrevistas com seus velhos colegas de guerra.

O inusitado de tudo isto está no fato de que "Uma Valsa para Bashir"´trata-se de uma animação psicodélica que lembra as do filme "The Wall". Impressionante a imagem de um homem navegando no ventre de uma mulher tal qual estivesse a bordo de um golfinho.

A animação foi aclamada e premiada em Cannes. Intensa, a história mexe a fundo episódios de guerra, relatando aquilo que não quer ser dito.

"Uma Valsa para Bashir" é lançamento em DVD, e recomendo MESMO esse filme. Vale a pena.

***

Um outro filme que me faz lembrar o título é "Uma canção para Carla" ("Carla's Song", EUA, 1996). Robert Carlyle ("Transpotting") vive George Lennox, um frustrado motorista de ônibus em Glasgow, Escócia. Conhece Carla, uma refugiada Nicaraguense e, com ela retorna à Nicarágua conhecendo os meandros da guerra civil que assola aquele país. Fotografia belíssima, trilha sonora de acordo e uma bela Oyanka Cabezas (atriz nicaraguense que ficou neste único filme) que vive a personagem título.

***

E para terminar com as dicas de DVD de hoje, um outro filme dos anos 1990, francês desta vez: "O Oitavo Dia". Produção conjunta da Bélgica/França/Reino Unido, "Le Huitième jour", de 1996, conta a história de um homem (Daniel Auteuil, "The Closet"), que se encontra com George, portador da síndrome de Down (Pascal Duquenne) , e vai a fundo na convivência da sua realidade.

Um filme pungente, triste, mas verdadeiro e muito bem contado! A cena de amor do personagem George com a namorada de escola é tocante. E o final, bem amigos, como diria o Galvão Bueno, é de arrepiar. Assisti a todo o filme firme.

A sequência final derruba qualquer muralha!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Planos para derrotar a Mônica

Vinha pensando em nada esses dias e cheguei à conclusão que o Cebolinha é um grande injustiçado, acusado de elaborar planos para derrotar a Mônica!

Para quem leu as historinhas de antigamente - anos 1970 e 1980, principalmente, porque depois a turminha caiu muito em qualidade e não foi só porque cresci - Cebolinha convencia Cascão de participar de seus planos infalíveis para derrotar a Mônica, planos esses que sempre iam água abaixo por culpa do Cascão.

Só que estava eu pensando naquele nada anunciado no primeiro parágrafo que os ditos planos infalíveis não eram para derrotar a dentuça de força descomunal: o piá só queria parar de apanhar!

Todos os planos engedrados por Cebolinha tinham por único fim fazer a Mônica prometer que não ia mais bater nos meninos!! Apenas isso, uma singela engenharia de ideias para parar de ser saco de pancada!

Hoje em dia, movido pelas novas tendências dos jovens que são totalmente diferente daqueles nos anos 1970 e 1980, Maurício de Sousa promove uma nova revista, que é a da turma da Mõnica adolescente (ou "teen", como preferem chamar). A linguagem dos quadrinhos é outra, no estilo mangá! Fala-se a língua dos adolescentes de hoje - Mônica chama o amiguinho de infãncia de "Ce", uma tendência nessa geração com preguiça de falar!

O interessante é que os quadrinhos antigos primavam por um português corretíssimo: eram crianças de sei lá que idade (mas notem que, salvo os maiores como Franjinha e Zé Luís, os demais não iam à escola) falando corretamente e com a lógica de pensamento adulto! O traço do desenho era mais limpo, as histórias eram, apesar da linguagem, histórias de crianças que brincam, correm, jogam bola e mesmo brigam entre elas!

O tempo passou para eles, também!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O fim do futebol

Entramos agora naquela época de escassas notícias futebolísticas - findo o certame nacional, restam as comemorações e comentários finais daquele que foi um dos campeonatos de menor nível técnico já visto, notadamente pela dificuldade que vários times tiveram de ser campeões.

Restou, como situação surreal, essa do Internacional depender de uma vitória sua combinada com uma vitória do Grêmio para se tornar campeão. Muito falou-se durante a semana sobre isso: entreguismo e outras sandices foram alimentadas nas mídias por aí. Acabou dando a lógica: o Internacional goleando o rebaixado Santo André e o Grêmio sofrendo sua última derrota fora de casa para um Flamengo estranhamente apático. Não jogou como campeão. Não fosse o desinteresse do Grêmio pela partida, e o resultado seria bem diferente.

Mas enfim, acaba o campeonato e com isso as notícias ficarão por conta de reforços, novos treinadores, por aí. Futebol às ganhas novamente só na quinzena de janeiro.

Até lá, festas, fim-de-ano, essas coisas. No meu caso, férias mesmo. Tenho muitos livros para ler.

Mas antes disso, ainda restam duas semanas de árduo trabalho, já que não vivo do futebol!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Houve uma vez um verão

Um dos filmes marcantes da minha adolescência foi o excelente "Summer of'42", no Brasil traduzido para "Houve uma vez um verão".

O filme conta a história de três adolescente que vão passar o verão de 1942 numa pequena ilha da Nova Inglaterra. Lá, entre a busca da iniciação sexual e filmes de guerra no cinema, um deles, Hernie, conhece e se apaixona por uma jovem e linda mulher, casada com um militar que aguarda sua convocação para a II Guerra Mundial.



O filme apresenta vários momentos marcantes como, por exemplo, a seqüência em que os três amigos, ao folhearem um livro sobre sexo, traçam planos sobre como deverão agir com as garotas que, como eles, encontram-se de férias na ilha, ou o momento em que Hermie se mostra confuso, diante do farmacêutico, ao tentar comprar uma caixa de preservativos e, principalmente, as cenas que se sucedem na casa de Dorothy, após esta tomar conhecimento da morte do marido, nas quais os dois protagonistas não trocam uma única palavra.

Após receber o comunicado da morte do marido, Dorothy bebe uma garrafa de whisky e chora. Com certeza, ela não se acha em seu estado normal. É difícil imaginar o que se passa por sua cabeça. Talvez ela precise de colo e Hermie seja a única pessoa presente em condições de confortá-la.

No dia seguinte, ela deixa a ilha e eles nunca mais se vêem. O filme conta com a narração em off do próprio Hernie muitos anos depois. O bilhete deixado por Dorothy é comovente: "Não tentarei explicar o que aconteceu ontem à noite, pois sei que, com o tempo, encontrará a melhor forma para se recordar daquele momento. Eu me lembrarei de você e rezarei para que seja poupado de tragédias. Desejo-lhe apenas coisas boas. Para sempre, Dorothy".

Há relatos daqueles que consideram ser esta história verídica que, após o lançamento do filme, em 1971, a verdadeira Dorothy teria enviado uma carta a Herman Raucher, informando-lhe que havia se casado outra vez, que era muito feliz e que já era avó.

O filme, de 1971, é estrelado por Jennifer O'Neill, belíssima então nos seus vinte e três anos. A curiosidade é que Jenniffer é brasileira: nasceu em 20 de fevereiro de 1948, no Rio de Janeiro. Filha de uma inglesa e um irlandês, mudou-se ainda bebê para Nova York.

As informações sobre o filme foram extraídas de http://www.65anosdecinema.pro.br/Houve_uma_vez_um_verao.htm.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ando meio desligado

O fim de ano, representado notadamente pela entrada do mês de dezembro, é marcado sem dúvida nenhuma, pelo Natal e Reveillon.

Com ele, todavia, vem o adiamento das decisões! Há quem faça suas resoluções de ano-novo, prometendo-se menos trabalho, mais lazer, aquela cirurgia para corrigir isso ou aquilo, um regime, parar de fumar, beber menos, ser mais tolerante, procurar fazer o bem e por aí vai.

Só que essas decisões são adiadas, no mais das vezes, para o verdadeiro começo de ano: depois do carnaval.

Ou seja, o ano termina lá por 23 de dezembro e começa no meio de fevereiro, quiçá março! Nesse interregno, em geral, não há grandes decisões.

Minha profissão sofre com isso: ninguém que quer contratar um advogado para resolver aquela "questã" da tia que deixou uma herança em dezembro! É pra quando começar o ano, ou seja, em março!

Por isso que ando meio desligado, postando de quando em quando: é preciso fazer o caixa até março! Eis o mito da cigarra!

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