sábado, 19 de dezembro de 2009

Dor

(conto escrito em 16/08/00)

Estou entorpecido por um sonho intranqüilo. E no descaso de meu corpo não percebo a visita de anjos ou almas divinas. Há isto sim um desconforto, que num espasmo sem saber esse corpo preguiçoso se joga para o lado. Não sabendo o motivo, e não podendo evitar o domínio do insubconsciente, sonho. Algo por demais real para uma dor que deveria ser irreal. No delírio não tenho força, não conheço do sorriso que fora meu um dia. Mas nada fora mesmo um dia, meu, de qualquer pessoa. Porque não se existia, não,se estava aqui ontologicamente dizendo. Sou, enquanto Ser, como deveria ter sido.... não, não, como posso ser.

Mas dói porque não evito. Dói porque não queria. Dói porque longe. Dói porque desconhecido. Dói porque inevitável. E em sonho mais uma vez perco. Dói.

Tudo bem. Já acordado percebo que era mesmo um sono inquieto e deprimido. Uma tristeza que veio do dia, da noite, da madrugada e do álcool. Que veio da vontade de nada fazer evitando assim que qualquer coisa desse errada. Refletiu em mim, no in, no sub.

Agora sei pertencer a esse plano material. Por isso racionalizo. Nos meus sonhos medonhos não há uma princesa que se queda numa torre/casmorra aguardando seu herói. Julieta não me quer como seu Romeu. Sou Dante que jamais chegou a um dedo de Beatriz. Amo o insondável, o inalcansável, o impossível, o instigante desejo de poder sentir a dor de desejar e não ter.

É um filme, um filme “B”, noir que me vem à cabeça durante o sono, dirigido pelo insub e estrelado pelo desejo reprimido de perder. Não exatamente perder, só se perde aquilo que se teve um dia. Pelo de deixar de ganhar... também não, só se ganha aquilo que será seu. Ela jamais seria minha. Verdades que se perpetuam no tempo e no espaço.

Agora digo: que sonho é esse que me revela o desejo reprimido de não alcançar aquilo que já não consegui no plano material? aquilo que já ficou além de minhas forças, de minha volúpia, de meu desejo, do prazer... um prazer meio doido de usar e ser usado?

Que sonho louco! Que sonho, louco. O quê? sonho louco?... muitíssimo doido o insub que faz tomadas irreais numa tela sem o sucesso que pretendia.

Dói saber que penso assim e não posso fazer nada contra.

Esquecer, não querer, não pensar, não grilar, fingir, se distrair, almejar... são outras possibilidades, outros verbos que, estes sim, refletem vontade, ao contrário de meu mordaz inimigo noturno Sonhar.

Ainda não entendo: na minha infância bruxas vinham em pesadelo. Agora que sou adulto elas vêm na parte amena do sono, porém deixam uma amargura na boca e um silêncio de filme europeu que ecoa nas paredes quando acordo. E não partem em vassouras sob a luz da lua cheia. Saem de fininho, sem esboçar sequer um sorriso, mas transmitindo uma tristeza que também sinto, Tristeza essa que há de ter um significado muito particular, uma razão estranha e instrínseca a todos que a cercam… mas dói ver alguém sofrer mesmo em sonho. Dói saber que sofro.

Dói ser real.

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