segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A dor em três tempos (final)

3 - UM OUTRO OLHAR

Caminhando às seis da tarde pelo centro da cidade, o mundo para ela agora não parecia, nunca mais seria, tão ilógico, irracional. Num tempo em que se permitiria novas experiências sem jamais magoar-lhe a existência, ela sabia, precisava, devia ser feliz. Retomando antigos hábitos, freqüentando outras rodas de amigos, até mesmo revisitando antigos namorados, amores perdidos, flertes um dia não correspondidos, possibilidades.

Por um instante após, na vida seguinte que vivera após a partida, recolhendo pelo chão do apartamento destroços e estilhaços da Última Grande Guerra, temeu estar só: algo como abandonada. Não estava, não era, sabia que não seria. Olhar o mundo através de outra perspectiva, havia o trabalho, o escritório, clientes impacientes, projetos e obras inacabadas, reformas, idéias pela metade.

Havia também o tempo de estar e talvez não ser. O eu sozinha, a noite de pizza descongelando no microondas, livros que se empilhavam à cabeceira da cama, de outras noites (um dia pensou) bem vividas, concluía: havia sua própria vida para viver.

Por essa época iniciou a reforma do apartamento, através de projetos desenvolvidos com a ajuda do sócio do escritório. Trocou de carro. Mudou o penteado, comprou novas roupas e gastou centenas em CD. Chorou ouvindo Ney Matogrosso, riu com desenhos que passavam aleatoriamente na tevê. Permaneceu horas ao telefone dando conselhos às amigas, também partidas de suas ex-dores.

Até o momento em que se viu, inevitável, quase imperceptível a possibilidade, diante dele: depois que tudo falaram, depois que nada mais era possível, depois de todos os pratos quebrados, cacos, feridas, cicatrizes também imperceptíveis somente aos olhos. Mas ali ela estava, onde, possivelmente não poderia precisar o lugar, momento, nada. Poderia fingir-se paralisada, cega, muda, ensaiar uma síncope cardíaca ou dizer olá-como-estás-foi-bom-te-ver-adeus. Nada. Palavras não se explicam, movimentos talvez. Não sabia também se sorria, se séria, se o que quer que fosse. Parou, simplesmente.

Vieram à luz os exatos mil cento e oitenta e nove dias havidos junto com ele. Primeiros encontros, beijos permitidos, mãos, noites de loucura e prazer. Viagens para Santa, de repente planos, de repente medos, fugas, infidelidade, abandono, volta, insistências, convivência. Nada mais que existisse. A boca, tantas vezes beijada, já nada falava, nada queria, não era.

Eram os segundos de uma vida, após uma nova, refeita, desta vez bem planejada. Não poderia haver novos momentos, reminiscências, tentativas frustradas. Não amaria novamente em vão. Para ele, quisera um dia não mais ser. Entretanto, era, fingia o não ser, o não existir, o não permitir. Entretanto, determinada, sabia esquecer, relegar às memórias nunca escritas uma história qualquer. Bem, não fora uma história qualquer, mas a partir de então faria crer que era. Teria que ser.

E assim foi. Passou, olhou, não disse uma só palavra, muda. Do contrário, receava nunca mais ser feliz.

1 - De Um Tempo De Partida, escrito em 19/02/99

2 - Derradeiros Finais, escrito em 09/03/99

3 - Um Outro Olhar, escrito em 07/03/99

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