segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os ciclochatos

Não tenho nada, ou ao menos não procuro ter nada contra as convicções das pessoas. A famosa frase de que gosto é como bunda, cada um tem a sua, possui seu viés de verdade - e assim como os glúteos, os gostos e opções pessoais também são alvo de olhares, críticas, admirações e et cetera!

O que não suporto é quando essas convicções vem acompanhadas da excelsa virtude: somente aqueles que partilham de tais ideias é que garantirão seu lugar no paraíso!

Na ZH deste domingo, 13/12/2009, o jornalista Moisés Mendes publica matéria sobre pessoas que optaram, à mercê do trânsito e sua legislação, a se locomover de bicicleta, ao invés de usar automóvel, motocicleta ou transporte público.

Até aí tudo bem, até acho legal quem tem o perfil para isso - sim, é uma questão de adequamento da pessoa ao meio. Eu não poderia usar da bicicleta diariamente para ir ao trabalho e sim, boa parte disso é porque simplesmente não quero.

O que não aceito é deslocar a virtude somente para aqueles (ainda poucos) que pedalam até seus destinos. A matéria fala em trânsito brutalizado, selvageria no asfalto e má educação no trânsito.

Inobstante tudo isso ser verdade - os acidentes, os acintes, os péssimos motoristas que jorram nas artérias da cidade, a matéria notadamente mostra como verdadeiros anjos e detentores do modo de vida de Primeiro Mundo aqueles que utilizam suas bicicletas como meio de transporte preferido!

Também não deixa de ser real a falta de espaço para deslocamento útil das bicicletas. Concordo. A Prefeitura há anos nos deve um planejamento nesse sentido. Agora, por favor, não rotule de forma maniqueísta as pessoas como boas ou más simplesmente porque andam de bicicleta ou de carro!

Nada mais chato que a apologia de algo feita por alguém que entende que a virtude está somente do seu lado. Primeiro foram os vegetarianos malas, que vão a churrascos para ficar enchendo o saco de quem gosta de se divertir e não renega sua natureza carnívora. Depois, vieram os ecochatos, que estão por aí, perturbando a paciência de quem leva cinco segundos a mais para lavar as mãos.

Por exemplo, nada mais chato que um ex-fumante fazendo apologia contra o cigarro. Não sou fumante, tive minhas experiências tabagísticas entre os 19 e 23 anos, por conta de situações bem específicas, mas aquilo não fazia parte de mim, tanto que o cigarro não pegou. Mas não tenho nada contra quem fuma. E não suporto aqueles discursos politicamente corretos. Aliás, ser politicamente correto é um porre!

Assim, do mesmo jeito é essa "nova onda" das bicicletas! Para justificar a virtude do seu lado, a referida matéria ainda cita o aparente infalível argumento de que no Primeiro Mundo é assim, pelas ruas de Amsterdã e coisas do gênero. Parece mesmo que somente os europeus prestam, ser brasileiro é coisa de terceiro mundo! Bah!

"A falta de educação no trânsito de Porto Alegre é sentida por todos, pelos ciclistas e também pelos pedestres", cita a matéria o comentário de um ciclista. Ora, o trânsito e a legislação correlata é feita em função dos veículos automotores que trafegam pelas vias e dos pedestres que por ela circulam! Já dirigiram no trânsito a 40 Km/h com uma frágil bicicleta te atrapalhando a 8 Km/h?

Os condutores de veículos automotores são reféns da falta de sinalização para bicicletas. Verdade que não respeitam nem faixa de segurança (e aí me lembra essa campanha mal-feita sobre as faixas), mas o que acontece com um motorista que albarroa uma bicicleta no meio da Protásio Alves, tão somente porque esta fez uma conversão sem observar o trânsito intenso de automóveis?

Sou a favor das ciclovias e também da diminuição dos carros nas ruas. Mas por favor não me venham dizer o que é ser bom ou ser mau: além de chato, é tremendamente maniqueísta!

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