terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Universo do teu corpo

“Eu te abraço corpo imerso em teu corpo
Em teus braços se unem versos à canção”


(Taiguara: Universo do Teu Corpo)

Tanto quis te achar, procurando-a desesperadamente em minha memória.

Como eras, anos atrás? Meio hippie, meio punk, estudante de publicidade com sonhos yuppies. Haviamo-nos conhecido numa festa universitária onde rolara todas as doses de heroína possíveis, eu estava de cara, lembra? Chamavam-me careta. Até pode ser, não sabes, ainda sou, sempre serei.

O uísque que não mais bebo, àquela época, incendiava meu corpo. Hoje, talvez mais sóbrio e mais maduro, viajado, anos de praia, talvez eu tenha me reencontrado. Pronto para te redescobrir, reinventar, re. Saberia facilmente achar teu esconderijo, nos anos que se antecederam à viagem. Já temo não possuir a mesma eficácia de antes.

Preparo as respostas, antes que perguntes:

— Por que voltaste?

— Desisti. Não encontrei no verão o apogeu da primavera, que Gilberto Gil me falara.

— Nunca conversaste com Gil.

— Em meus sonhos, nos delírios, nas vezes que quis.

Estaremos sentados em algum café do Porto, tomando capuccino e lendo revistas antigas.

— Amaste?

— Nunca consegui, depois de partir. Descobri que pessoas, são iguais, talvez por isso…

— O mundo seja redondo.

Sorri, conclusiva, imaginando onde andou minha mente comandando o corpo. Que jeitos, que costumes, que praias, que anos eu tenha vivido. Estás curiosa, não me dirás. Falarás de ti.

— A agência vai bem, fechamos algumas contas exclusivas.

— Tenho uma cachorra chamada Dela.

— Comprei um Renault no ano passado, acho que vou trocar pro Passat.

Etc.

Serão vinte horas do dia do reencontro. Apenas nos falamos, primeiro por telefone, depois duas vezes na corrida do dia. Estavas atrasada para duas ou três reuniões, o celular interferindo a todo momento.

— Agora desliguei. Não tocará. Reformei o apartamento, não reconhecerias…

— Não reconhecerei.

— Achas que te convidarei para subir, tomar um café ou trepar mesmo?

— Sei que sim.

— Que sim… - repetirás, enquanto vasculhas a bolsa, procuras cigarro.

— Voltaste mesmo a fumar… Li em algum lugar que pessoas fumam para suprirem alguma frustração sexual.

Nada falarás. Ris, nisto não mudaste. Mudaste o cabelo, as roupas, os projetos pessoais, mas ainda vejo, sei que és tu. Que me queres. Que te quero.

— Não é má idéia. — dirás, ao aceitar o convite para o teatro. Já será outro dia. Desta vez falarei de onde estive, quem conheci, quem.

— Não sei se quero saber de uma improvável extensa lista de conquistas amorosas — me privas assim do exibicionismo sempre em mim tão natural.

— Tudo bem, não falo.

Já saímos do teatro e são mais de vinte e duas horas.

Não sei bem, mas estará chovendo. Levarei minha capa de chuva, protejerei-te até o carro, pedirás que eu dirija, eu não aceitarei, mas te darei um beijo que tu não poderás evitar.

— Claro que posso.

— Não serei mais futuro. — digo.

— Nem passado, apenas seja.

Sou. Estamos em um simpático bar achado ao acaso. A crooner canta MPB, passo bilhetinhos encomendando canções, há mais casais no local, onde pessoas se acham, se procuram, sem qualquer ordem.

— Viajaste, rodaste o mundo, agora voltas… — comentas, evasiva, nada que não seja passado.

— Retornei, enfim.

— Para onde?

— Para ti.

— Cidade turística! — ela responde, cacófato, trocadilho.

A cantora faz uma pausa, desafio-te. Com um sorriso, aceitas o jogo.

— Gosto do lado lúdico da sedução. — dizes, apenas, antes de levantares da mesa.

Peço mais uma garrafa de vinho enquanto afinas o violão, sentas no banquinho, ajeitas o microfone. O dono do bar te anuncia, dedilhas, me olhas, não me enxergas. Cantas, enfim: Eu desisto, não existe aquela manhã que eu perseguia…

Ao final da canção, o público pede bis, quer mais, não mais do que quero, não mais do que teu corpo. Enfim me acho, porque em ti me procuro.

De lá saímos, rindo muito, incentivados pelo álcool, beijos, não apenas beijos, mas mãos, toques, corpos, universos. No teu apartamento, realmente reformado, que realmente não reconheço. Não deixaste vestígios, sem procuras, um crime quase perfeito.

Acordo, manhã gelada característica desse mundo gaúcho, diferente de outros invernos passados longe de ti. Dormes sonhos preciosos, teu cabelo espalhado pelo corpo e pela cama, levanto e indago o sol que ousa se apresentar.

Deixo-me ficar, deixa-me ficar. Como Bilac:

“O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

Nosso futuro torna-se incerto, há uma vaga canção em que pressinto nossa história, a mesma que cantaste aquela noite, lá no bar. Da tua voz não mais me esqueço. Fico, permanecerei para sempre.

— Não me deixarás?

— Não te deixarei.

— Nem pelo mundo, pelas estrelas, por outro sol que nascerá?

— Nem pela existência, pela nau que a vaga naufraga, pelos beijos demorados.

Sorri, beija-me, somos o meu, o teu corpo. Nosso.


(primeira parte, 19/03/99 00:58; segunda parte, 22/03/99 08:52)

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