quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Doce ilusão

Como sói acontecer em épocas de fartura no prêmio da mega-sena, as mídias veiculam matérias sobre o que se pode fazer com a fortuna sonhada. Tantos mil carros populares, não sei quantas coberturas de luxo, um valor que se aplicado na poupança renderia centenas de milhares de reais por mês e por aí vai.

Não sei quanto a ti, mas a mim dinheiro nunca deslumbrou! Não estou falando de quantias módicas que se ganha aqui e ali fruto do trabalho ou de uma contravençãozinha ali no jogo do bicho: são os tais R$ 70 milhões prognosticados para hoje na mais concorrida das loterias.

As pessoas apressam-se em dizer que largariam tudo e viveriam uma vida de rei. Na verdade, tenho dó de quem pensa assim: não admito que minha vida possa ser tão vazia a ponto de eu deixar de ser quem eu sou, como eu sou e onde sou.

Nada mudaria: trabalho, filhos, esposa, amigos, família, sonhos. Nada disso se compra (nem se vende). São conquistas nossas, em maior ou menor grau. Tudo dependendo, é claro, de nossas escolhas. A minha é ser feliz, e R$ 70 milhões passam longe disso, vai além. É questão de caráter, e isso também não se comercializa.

Joguei, portanto tenho chance (uma em cinquenta e quatro milhões). Mas não me iludo, até porque ganhar um ou setenta milhões é, para mim, quase a mesma coisa! Tirando a preocupação diária com as contas que se empilham na mesa, o resto permaneceria - e permanecerá - igual!

A ilusão é doce ao pensar que podemos ser felizes não sendo nós mesmos!

***

Tudo isso me fez lembrar Raul de Leoni:


Almas desoladoramente frias



Almas desoladoramente frias
De uma aridez tristíssima de areia,
Nelas não vingam essas suaves poesias
Que a alma das cousas, ao passar, semeia...


Desesperadamente estéreis e sombras
Onde passas (triste aura que as rodeia!)
Deixam uma atmosfera amarga, cheia
De desencantos e melancolias...


Nessa árida rudeza de rochedo,
Mesmo fazendo o bem, sua mão é pesada,
Sua própria virtude mete medo...


Como são tristes essas vidas sem amor,
Essas sombras que nunca amaram nada,
Essas almas que nunca deram flor...

Um comentário:

blog da Paraguassu disse...

É Rodrigo, tens razão. Nada, a não ser aquilo que adquirimos com nosso esforço pessoal, muda nossas vidas significativamente. Somos, na verdade, frutos de nós mesmos. Estamos com muita saudades de vocês. Abraços e beijos na Raquel e na fofura da Heleninha.
Tasso e Maria.

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