quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Martín e Alejandra

Martín a observou em silêncio, entristecido pela sombras que sempre se moviam por trás de certas frases de Alejandra.

Mas logo aqueles pensamentos foram arrastados como folhas por um vendaval. E abraçados como dois seres que querem tragar-se mutuamente - recordava - mais uma vez se realizou aquele estranho rito, cada vez mais selvagem, mais profundo e mais desesperado. Arrastada pelo corpo, em meio ao tumulto de consternação da carne, a alma de Martín tentava fazer-se ouvir pelo outro que estava do outro lado do abismo. Mas essa tentativa de comunicação, que findaria em gritos quase sem esperança, começava já no instante que precedia a crise: não só pelas palavras que se diziam mas também pelos olhares e gestos, pelas carícias e até pelos afastamentos de suas mãos e bocas. E Martín tentava chegar, sentir, entender Alejandra tocando em seu rosto, acariciando seu cabelo, beijando suas orelhas, seu colo, seus seios, seu ventre, como um cachorro que busca um tesouro escondido farejando a misteriosa superfície, essa superfície cheia de indícios, indícios demasiados obscuros e imperceptíveis, no entanto para os que estão preparados para sentí-los. E assim, como o cão, quando de repente sente mais perto o mistério procurado, começa a cavocar com febril e quase enlouquecido fervor (já alheio ao mundo exterior, alienado e demente, pensando e sentindo aquele único e poderoso mistério já tão próximo), assim acometia o corpo de Alejandra, tentava penetrar nela até o fundo escuro do doloroso enigma: cavando, mordendo, penetrando frenéticamente e tentando perceber cada vez mais próximos os débeis rumores da alma secreta e escondida daquele ser tão sangrentamente próximo e tão desconsoladamente distante. E enquanto Martín cavava, Alejandra talvez lutasse em sua própria ilha, gritando palavras cifradas que para ele, Martín, eram ininteligíveis e para ela, Alejandra, provavelmente inúteis, e para ambos desesperantes.

E logo, como em um combate que deixa o campo cheio de cadáveres, e que não vão servir para nada, ambos ficaram silentes.

(Ernesto Sábato: Sobre Heróis e Tumbas)

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