sexta-feira, 21 de maio de 2010

O direito e o esquerdo

Não é raro lermos alguma matéria, em jornal ou revista, sobre pessoas que deixaram suas profissões, em geral precedidas de curso superior e até mesmo pós-graduação, para dedicarem-se ao seu sonho original: trabalhar no campo, abrir uma confecção, abrir um bar, escrever, dentre outras.

Uma coisa tenho notado: quase que invariavelmente, lemos na matéria algo como "deixou o Direito para dedicar-se a", ou "largou promissora carreira jurídica para etc.".

Ninguém larga a odontologia para dedicar-se à lapidação de pedras preciosas em Iraí! Ninguém suspende seu registro no conselho de medicina para dedicar-se ao seu estúdio de criação digital. Claro, existem exceções, justamente para confirmar a regra.

Mas volta e meia vê-se alguém que larga o Direito (em geral a advocacia, pois são raros aqueles que abandonam as carreiras de Estado) para trabalhar não naquilo que fora motivada pelos pais ou pelo aparente glamour da profissão, mas no que mais se identifica, muitas vezes sonhos de infância. E por que isso?

Várias são as respostas, e eu só ouso registrar algumas delas. Uma é o alto número de cursos jurídicos hoje existentes no Brasil. Qualquer um faz um curso de Direito! Se não ingressar na faculdade A, B ou C, conseguirá na D. Se não esse ano, em algum outro ano. São muitas vagas! Muitos cursos privados ávidos por alunos! E tão fácil quanto entrar, fácil é sair. Não vou ser hipócrita de dizer que é difícil. Não é - evidentemente não estou falando dos cursos de ponta, os quais não preciso citar o nome. Fui professor nesse setor e sei bem o que estou falando.

Outra resposta possível é que, aliado com o grande número de ofertas, está o aparente glamour da profissão. Aliás, também não é raro alguém fazer Direito como seu segundo curso superior! Já ouvi e vi vários amigos, das mais diversas áreas, dizerem que um dia cursariam Direito - quando não estão cursando ou mesmo já formados! Ou seja, muito mais do que qualquer outro curso, muitos mais pessoas querem o Direito. Algo como todo mundo um dia já quis ser médico - eu já, tinha seis anos e não tinha idéia do que estava falando, mas queria!

Outra possibilidade é a desilusão com a carreira, principalmente com a de advogado. Há os que sucumbem ante o Exame da Ordem, alguns depois de meia dúzia de tentativas frustradas. Outros, ainda que superando esse obstáculo (obstáculo esse que me impus quando ainda não era obrigado a isso e, diga-se de passagem, passei na primeira), acabam se desiludindo com o dia-a-dia da profissão - é preciso muita paixão e desapego à estabilidade financeira.

Ainda, há os que, optando pelos concursos - desejo da grande maioria dos acadêmicos, o que percebi nos meus três anos como docente - terminam por não lograr êxito nos processos seletivos: um pouco pela dificuldade dos mesmos, um pouco pela imbecilidade das provas, e ainda outro pouco pela má formação e/ou mau preparo do candidato. Depois de alguns anos com o título de bacharel, que por si só não quer dizer nada, começam a olhar para os lados.

Passam a ir atrás dos sonhos. Vêem que seguir o sonho dos pais ou a ilusão de uma carreira glamourosa não era o melhor caminho. Mas, que diabos, se decide isso com 16 ou 17 anos!

É largar o direito para se agarrar ao esquerdo!

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