quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Crônica

Fernando Sabino foi um dos grandes cronistas que o Brasil produziu. Que Minas produziu, um cicio me corrige ao ouvido como se o espírito do escritor me sussurrasse a verdade. Pois é mesmo, um Estado que nos concedeu cronistas como Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, dentre outros.

E por mais curta que uma crônica possa ser, que coisa mais dífícil de fazer! Pelo menos com a perfeição que Sabino fazia! A crônica do dia-a-dia, da rotina, da observação de fatos cotidianos que muitas vezes podem ser banais é uma arte - tente fazer e veja a dificuldade que te imporás!

Pois esses dias relendo meus "sabinos", achei a crônica "Operação- Lebre" em que o escritor mineiro narra com perfeição um insólito diálogo no balcão de um cartório judicial - para quem vive o dia-a-dia do ofício, é uma gargalhada só, com pitadas de momentos reais:

Os serventuários da Justiça voltam a falar numa operação-tartaruga - desta vez a propósito do anunciado aumento de custas. Consiste a referida operação em reduzir as atividades ao mínimo necessário para o andamento dos serviços.
Acredito que o recurso seja eficiente. Sempre acreditei no lema da tartaruga: devagar e sempre - com o qual logrou vencer a própria lebre naquela célebre corrida.
Mas operação-tartaruga (que os serventuários me desculpem, também já fui um deles) a nossa Justiça sempre fez. Ocorreu-me sugerir então aos meus ex-colegas uma operação-lebre, certamente de muito mais efeito, salvo melhor juízo:
- Quede o processo que estava aqui?
- Lebre comeu.
- Como?!
- Foi despachado.
- Já? Que diz o despacho?
- "Expeça-se o alvará". Foi expedido.
- Expedido? Se não faz nem quinze minutos...
- E já foi cumprido, o preso já foi solto...
- Foi solto como, senhor! Que brincadeira é essa?
- ... e já tornou a delinquir, foi preso de novo, autuado, indiciado, processado, condenado, e está cumprindo pena.
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O advogado entra descansadamente no cartório:
- Conversei com o perito. Prometeu o laudo para esta semana sem falta. Queria que vocês fizesse...
O escrevente não o deixa terminar:
- Já fiz. O laudo já está aqui, fiz a juntada, abri vista para a outra parte, já falou, todos os fiscais já falaram, fiz conclusão para sentença.
- Será que o juiz decide ainda este mês?
- Já decidiu. O senhor teve ganho de causa, a sentença foi registrada, publicada e está certificada.
- Quer dizer que, se a outra parte não recorrer...
- Já recorreu. A petição foi despachada, juntada, autos conclusos, alegação procedente, nova sentença: o senhor perdeu a questão!
- Não é possível! Também posso recorrer da sentença.
- Podia, não pode mais: já transitou em julgado.
- Que transitou em julgado coisa nenhuma! Estou dentro do prazo.
- Prazo? Que prazo? O mandado já foi expedido, o pagamento já foi feito, o processo já foi arquivado. Operação-lebre, meu amigo.
E, se o advogado ousar protestar, o escrevente acolhe imediatamente a reclamação em forma de petição, colhe assinatura, autua, abre conclusão e cobra as custas, por ser de integral justiça antes que o advogado fale gato.
Ou lebre.

(SABINO, Fernando. Operação-lebre. A mulher do vizinho. 9. ed. Editora Record: Rio de Janeiro, 1962, pp. 39-41)

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