sábado, 20 de fevereiro de 2010

Para toda a vida

Para Paulo Peres

Lembro como se fosse hoje - mas passaram-se vinte e dois anos. Chego no seu apartamento, abarrotado de livros acumulados pelos anos de exercício da profissão e da aquisição desenfreada dos mesmos. Separara uma pilha deles, entregou-me volume a volume no colo, e fui folhando, olhando com a curiosidade de neófitos. Ansioso por dizer algo, falei:

- É... tenho leitura pra algum tempo!

Ele se virou, dedo em riste, dando ênfase a cada palavra, como era seu estilo, um tom acima:

- Algum tempo? tens leitura para toda a vida!

Afinal, eu fora aprovado no concorrido vestibular para a Faculdade de Direito e possivelmente era a carreira escolhida. Para toda a vida - seja lá sempre quanto tempo for toda a vida!

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Lembro como se fosse hoje, e faz apenas cinco anos: numa tarde de 20 de fevereiro, após muitas cervejas, o telefone interrompe meu domingo sem planos imediatos. "Teu padrinho faleceu!".

Chorei a dor da distância e da perda, chorei à distância impossibilitado pelos 800 Km que então nos afastavam, um problema no cano de descarga do carro, toda a cerveja acumulada durante o dia - chegaria, quando muito, na hora do enterro. Seria loucura. Não fui. Prometi visitas que não se cumpriram, mas essa mesma vida que me privava daquele que fora meu tio, meu padrinho, meu colega e acima de tudo meu amigo me daria chance de ir visitá-lo como se fosse o significado da última vez. Apenas o significado, posto que jamais será a última.

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Lembro como se fosse hoje, mas faz tão somente dois anos: eu esvaziava o apartamento que entregava para a mudança, de casa, de cidade. Livros sem utilidade, todos para a calçada. Inclusive uma coleção completa de Washington de Barros Monteiro, de 1967 - o direito mudou tanto! Empilhei os volumes na calçada, junto com outras tralhas que já iam sendo recolhidas por um carroceiro. Ao me afastar do livros que iam sendo esquecido, sua mão pousou mansamente sobre meu ombro, e a voz se fez ouvir, sempre com aquela eloqüência: "Por algum tempo? Terás leitura para TODA A VIDA"!

Não ousei perquerir aquele pensamento, ou aquela voz, o que fosse: recolhi a coleção da calçada e a condicionei numa das caixas de mudança. Os volumes continuam intactos com lugar de destaque na estante!

Afinal, são tão poucas coisas, além da própria, que são para toda a vida! Minhas lembranças, por exemplo!

Um comentário:

Tasso Peres disse...

Meu filho,

Tua mensagem tocante e carinhosa, com certeza, já deve ter chegado ao
destinatário, muito antes mesmo de
transcrevê-la.Vejo-o claramente, na sua exuberância costumeira, dividir a alegria do recebimento da mensagem, com nossos entes queridos, que o precederam nessa viagem.

Teu pai e amigo, Tasso Peres.

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