sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Roda-Gigante

APESAR de ter passado quase uma vida inteira por ali, ela não conseguia lembrar que construção houvera naquele terreno baldio que ocupava uma quadra inteira. É como se sua lembrança fosse preenchida pelo vazio de seus dias. Não importava mesmo o que existira ali, talvez nada mesmo tenha havido e sua impressão era apenas algo perdido no passado.

Há muitos anos ela era estoquista em uma fábrica de parafusos. Contar, separar, ordenar e classificar; inventariar, repor; depois contar, separar, ordenar e classificar novamente. E mais uma vez inventariar, e depois repor, contar e assim sucessivamente por longas oito horas diárias, durante os cinco dias da semana e mais as manhãs de sábado. Seu chefe era um sujeito um pouco gordo de unhas sujas que pigarreava a todo instante, reclamava, andava à toa pelo depósito, sumia de vez em quando talvez atendendo ordens superiores.

E saía às seis da fábrica para passar na padaria e comprar algum pão para comer à noite enquanto reordenava as coisas em seu pequeno apartamento alugado num conjunto habitacional popular não muito longe do trabalho. Sala, cozinha, quarto, banheiro, área de serviço. Ligava a tevê à toa no canal que todos viam sem pensar e ela mesma sequer via, apenas passava da cozinha para o quarto tropeçando em algumas coisas que acabavam espalhadas pelo chão da sala. Seguia na mesma rotina até dez e pouco da noite, quando tomava banho, fazia sua higiene pessoal, desligava as luzes, conferia se a correntinha da porta estava presa e ia dormir. Até as seis da manhã, quando acordava para fazer seu café e preparar o sanduíche que comeria na fábrica, durante o intervalo.

Precisamente todos os dias às sete horas e quarenta estava na rua para cumprir o rotineiro roteiro até o serviço. Quinze minutos de caminhada sem pressa, pensando na falta de sentido para tantas coisas, e ainda chegava com uma folga para fumar um cigarro e conversar banalidades com as colegas.

Mas naquele dia, antes de chegar à fábrica, caminhando absorta pela rua, surpreendeu-se – e pensou meu Deus, quanto tempo que não me surpreendo com nada – com algo tão banal que parecia até mesmo que mudaria sua vida. Naquela última noite, depois de não conseguir fixar na lembrança o que havia sido demolido naquele quarteirão, caminhões haviam aportado ali e descarregavam ferros, lonas, estruturas. Quase parou para tentar descobrir o que estava acontecendo, e não parava nunca naquele pensado trajeto matinal. E logo percebeu que se tratava de um parque de diversões que chegava à cidade – diversas placas coloridas se erguiam anunciando atrações: carro-choque, cavalinho, carrossel, montanha russa, etc. E roda gigante.

Chegou ao trabalho um minuto após o habitual, mas ainda com quatro de folga para fumar seu cigarro e conversar com as colegas. Por um momento ficou rememorando o que vira: homens carregando madeiras, máquinas barulhentas, ferros sendo erguidos. Mas logo absorta nas horas de rotina estava ela compenetrada para contar, separar, ordenar e classificar.

Foi nesse dia mesmo que o chefe anunciou que a empresa estava fazendo cortes: recessão, escassez, globalização foram algumas das bobagens que o homem disse – e que não entendia o que estava falando – para justificar que haveria demissões. O sindicato, alguém tentou argumentar, e o chefe deu de ombros, ele sequer era sindicalizado: era chefe, estava do lado do patrão. E todos voltaram a funcionar dentro daquele galpão de estoques no fundo da fábrica, temendo por seus empregos.

Ela não chegou a temer pelo futuro – tantos anos, quantos? Já nem sabia mais, todos dedicados à firma. Sexta feira, alguém disse, e era a recém quarta. Duzentas demissões, outro disse que ouvira um boato. Nada que fosse tão concreto ou chegasse a seu mundo com tanta facilidade.

Assim mesmo, sem pensar, fez todo o caminho de volta, o de sempre. Inverno, já escurecia cedo. E parou um momento quando viu as luzes do parque brilhando, e um recém movimento começando. Pessoas, crianças, balões, pipoca. Brinquedos funcionando. E roda gigante.

Não parava nem na ida, nem na volta. Ainda nem passara na padaria para comprar seu pão. Mas se deteve na calçada, e ficou a mirar – já admirava – a roda gigante. Pois nunca mesmo andara numa. Nunca ira a um parque de diversões. Nunca.

Não soube precisar quanto tempo ficara ali parada, mas o suficiente para alterar sua rotina. Acabou não comprando pão, acabou não arrumando a casa. Ficou sentada no sofá, tevê ligada e seus olhos nada assistiam. Era como se sua mente por igual nada pensasse. Era como se parasse de funcionar.

Dormiu sem que sua rotina fosse observada, dormiu de meias. Teve sonhos redondos – nunca sonhava nada, nunca se lembrava de qualquer sonho que possa ter tido, dormia como se não tivesse estado ali. E acabou precisamente na hora de sempre.

No seu andar, acabou comprando um sanduíche na padaria – natural, cenoura, alface, beterraba. A moça embrulhou com cuidado em papel-filme, ela carregou dentro da bolsa, absorta. E novamente – como teria que ser sempre – passou defronte ao parque. E lá viu, apenas, e de novo, a roda gigante. Parada, absorta como ela. E como tudo tende a se repetir, não soube mensurar o tempo inerte na calçada, defronte à tela que a separava daquele brinquedo – tão misterioso quanto ela. Poderia ter sorrido, não soube ao certo se sorriu, soube apenas que concluiu seu ritual seguindo adiante. E chegou ao trabalho sem nenhum minuto de folga: não fumou, nem conversou com as colegas.

Durante a rotina laboral, sequer notou que as colegas não se olhavam, não conversavam, emitiam quase que grunhidos suficientes para a necessária comunicação. De resto, cabeças baixas, rostos preocupados. No dia seguinte duzentas pessoas estariam sem emprego, passariam meses tentando nova colocação. Ela não atingia tamanho grau de absorção. Apenas detinha-se em contar, separar, ordenar e classificar. E, vez por outra, detinha-se no formato de algumas porcas: redondas. Como roda gigante.

Saiu uma vez mais do trabalho, precisamente ao toque das dezoito horas. Depois foi como se o tempo não existisse, como se dormira em pé no seu repetido trajeto. Parada defronte ao parque, olhos reclusos na roda gigante. De novo a precisão temporal foi algo que lhe escapou ao alcance. De novo destruiu sua rotina. Mais uma vez chegou em casa sem o pão, e novamente dormiu de meias!

Na sexta-feira acordou como se tivesse perdido o horário: consultou o relógio, estava quinze minutos atrasada. Levantou-se com a pressa dos perdidos, vestiu-se com o que tinha à mão, não passou na padaria e quase conseguiu passar correndo pela roda gigante. Mas parou.

E parou, e era como se não quisesse mais sair dali. Brinquedo parado, sujeira de uma noite inteira de brincadeiras espalhadas pelo chão, a roda gigante adormecida como se quisesse lhe contar toda a história. Dali mesmo, com o profundo silêncio de uma manhã adormecida, ouviu o apito da fábrica. E correu, como nunca correra em sua vida, para chegar à tempo. Sem cigarro, sem conversas.

O chefe a recebeu no pátio da fábrica, repreendendo-a. Como chegar atrasada em pleno dia de demissões? Pensava mesmo que tanto fazia se fosse mesmo demitida? Foi orientada a se dirigir para o auditório da fábrica. Lá, em pé, todos operários aguardavam sua sentença.

O diretor administrativo, impávido de gravata, enunciou as razões de tantas demissões e elogiou o trabalho de todos: sem exceção, estavam de parabéns. Aos que ficavam, um ânimo para que continuassem produzindo. Aos que saíam, cartas de recomendações, e as portas abertas para voltarem quando a situação melhorasse. A lista de demissões estava sendo afixada no pátio naquele instante.

Os trabalhadores acotovelaram-se em torno da extensa lista: gritos desesperados, rostos consternados, pessoas enfurecidas. Seguranças tentavam acalmar os ânimos, o chefe sentou-se no chão, encostado em uma parede: estava demitido.

Somente depois de alguns minutos, quando os demitidos procuravam consolo nos braços daqueles que se salvaram, é que ela se aproximou, e lentamente, acompanhando a ordem alfabética, viu que seu nome não constava na lista.

Não houve emoções, nem surpresas. Apenas olhou mais uma vez a figura do chefe, entre lamurias “a minha família”, e voltou-se para seu bunker de trabalho. Seriam mais 8 horas contando, separando, ordenando e classificando.

E saiu às seis, mais uma vez. Não apenas parou no parque: entrou. Dirigiu-se à bilheteria e comprou um passe para a roda gigante. E finalmente subiu no brinquedo. Barulho de ferro batendo, barulho de motor funcionando. E subiu.

Fechou os olhos.

Roda roda mundo, roda gigante, ela pensou, e estava feliz: o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração , embora ela soubesse que a partir dali tudo continuaria igual.

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