quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Conto: "SILÊNCIO NO AFETO OU A JANELA DO 5° ANDAR"

Desenha em alguém a pessoa
que eu desenhei em você.
Desenha e não jura
paixão nunca dura,
valeu amiga, a gente se vê.

Oswaldo Montenegro: Silêncio no afeto


A luz que vinha do 5° andar. E com a luz todos os enigmas daí advindos: meias-verdades, verdades relativas. Os fatos dividiam-se em realidades paralelas, o ser e o não ser, o poder e a impossibilidade, o querer e o inconquistável. Conjeturou. Analisou. Refletiu, quase como o branco da iluminação que saía do alto do edifício pela janela. Já era tarde, e no amanhã seria cedo demais.

E nem foi tarde nos dias e noites que passaram. Os dias passaram mesmo em vão: distraía-se com a rotina do dia-a-dia. Já vivera desses vazios muitos anos antes, e agora carregava o (a)cúmulo da experiência desse tempo todo. O que fazer, com tanta maturidade, quando se deseja, quando a provocação se torna mais forte, quando os achegos vêm com tantas subliminares que é impossível mesmo saber de toda a verdade?

Existiam mentiras, mas não necessariamente essas mentiras que fazem mal, mentiras que machucam e acabam com relacionamentos. Naquele caso, apenas omissões, os fatos recontados, a cristalina verdade mascarada de uma forma para evitar a dor. E o erro. O medo maior era errar, pagar o mico mais uma vez. Isso não admitia, por isso seria uma das poucas vezes em que planejaria sua ação. Passo a passo, nada poderia deixar de estar milimetricamente arquitetado: ruiria se agisse com o ímpeto que justificara as grandes mudanças da vida.

Longe: as garrafas iam empilhando-se na mesa, entre conversa descontraída com os amigos. Perto: passavam tão próximos um do outro que era como se trocassem pensamentos, esses pensamentos que minam a gente quando nos sentimos desejando a maçã do paraíso, feito Adão e Eva. Mas ficam apenas experimentando-se, não admitem (para si ou diretamente para o outro) que o desejo é algo controlável e que como pessoas adultas podem viver tranqüilamente desejando um ao outro sem que nada acontecesse. É normal, é saudável.

Mas para ele cada vez mais isso lhe arrepiava a pele, mudava-lhe os sentidos. A leitura que os confidentes de bar traziam-lhe incendiavam a possibilidade. “De louco passado ou engano, seja o que for, é normal, tá tudo certo, silêncio no afeto, o poeta canta o final”. Deixar que os fatos dominem os pensamentos e as verdades. Deixar que a vida leve. E que seja leve. Sabe que permanecerá – o medo de inserir na pele seu nome como uma marca indelével, definitiva.

E tornava a indagar a fenestra do 5° andar. De lá vinha o silêncio e a impossibilidade. Longe: chovia. Perto: era como se houvesse sol. Longe: era como não estar ali. Perto: impossível fugir. O resto seria negar as conseqüências.

Renovando as cervejas na mesa, continuavam a traçar as possibilidades, para todos cada vez mais reais. Tudo que vai, volta, tudo que sobe, desce, era o que sabia, era o que lhe diziam. E quando realmente voltou, desceu, quando passou por segundos diante dos olhos que testavam e queriam, foi quase planejado, para ele, para ela: um assobio, um sorriso, um aceno. Perto. Longe: os segundos depois que tudo passou. Perto: a cena repetindo-se na mente, martelando os pensamentos. Longe: o álcool e a mesa e o bar – estariam a influenciar suas decisões não tomadas?

Foi assim que adiou tudo: para quando menos esperasse. Negar, insistir, repetir, dar a consistência dos atos aos pensamentos que o atordoavam – seriam essas suas próximas decisões? Não sabia. Apenas olhava: a luz apagada, mais uma vez tarde – todos dormem, ele dormirá também.

No sonho, um anjo lhe contará enfim toda a verdade.


(Escrito em Ijuí, 27/11/03, 8h46min)

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