quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cristais Partidos

O beijo estalou no ar soando como despedida. Fosse eu outra pessoa, irreal ou não, na tela da tevê ou imerso em algum pensamento alheio, esse personagem de delírios faz mira com os olhos procurando hipnotizar aquela quem (talvez seja) sua amante. Feito super-herói, dotado de poderes incomuns – e, no entanto, amar como ser meramente mortal. Amar também é morrer, é voltar todos os dias a um lugar desconhecido (incerto e não sabido), é mergular em profunda introspecção, é retardar dores que um dia acontecerão.

E então, beijo em despedida: vozes em coro, ilusão instantânea, quem sabe ouvindo Elis, ela partindo para um outro lugar onde não estarei, batendo aquele desejo de feroz onipresença, ficará entregue a momentos evasivos nos lugares (aqueles não sabidos), e saudade é revisitar uns outros lugares que lembram velhas histórias, paixões, primeiros beijos e.

A primeira impressão é a de que não estou aqui. De que o momento não existe. Amar é não existir. E saudades, perceber o mundo ao redor sem.

Preciso ir também. Para outro rumo. Ceder o espaço que ocupo para ser tomado por outra pessoa. Todos os lugares do mundo são ocupados novamente, quando precisamos-queremos-podemos desocupá-los. Na sala de espera. Na poltrona do cinema. Na fila da fila. O mundão não foi criado para haver nele o vazio (existencial). Quando intuímos o desamor (amar é intuir) descobrimos, pelo rompimento, que não mais existimos. Não para uma série de pessoas que percebiam nosso desassossego (pode ser). Por nós.

É preciso romper! Há todo um passado nos olhando pelas costas. Deixando-nos prosseguir. Para um dia, preparados, nos derrubar pelas costas! (Ela diria) Amar é trair!

Trair a: vida concedida, concessão que nos é dada para (pensar sorrir sentir beijar amar intuir iludir olhar parar e). O caminho deve ser seguido; a missão, cumprida. Cumprir esse código de ética de honra genético moral legal espiritual, espírito e mente sana. E somente então retroceder. Voltar num tempo em que não é mais possível ter o que (talvez) tínhamos!

Tempo de negação. Reconstruindo uma imagem gerada por pesadelos, desses que temos em vida. O beijo era o sonho (amor é pesadelo). Despedida.

Amar é partir a todo momento.

E então, que ela esqueça esse sentimento no caminho, no atalho ou, enquanto dorme, sonhe com seus heróis de infância, jurando viver em outro mundo, distante e (quer crer) inexistente.

Lendo pensamentos, quem sabe eu soubesse de seu amor. Paixões não partem em carruagens deixando rastros de qualquer perfume impregnado no ar. Paixões explodem ou implodem. Mas impossível decifrá-los, qualquer vâ expectativa tangenciaria a evidência.

(mas amor não é perceptível aos olhos, desses que usamos para admirar as paisagens de todos os dias) Seriam essas suas palavras. Por suposição.

Os olhos fecham-se às barreiras, por ora intransponíveis. Amar não é enxergar o outro lado? Gritos, para nada! Não ouço a resposta porque ela está ausente.

E não responderá, mesmo que o som se propague à razão de [números]. Não ouvirá. Por intuição, em seu destino rumo a um outro dia, não ousará olhar para trás!

É que (ela sabe) estarei bem atrás – os olhos serão os mesmos, a boca, a voz, os cabelos serão os mesmos, e o desejo, indestrutível!

Sei que se o amor, fosse material, seria de vidro.

E todos nós somos, ao menos uma vez, atiradeira.

Restam, de cacos que cortam e deixam à mostra, feridas e cicacrizes.


(outubro/1995)

Um comentário:

** L. ** disse...

" Amar é partir a todo momento." Gostei muito...

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